CONTROLE DO TRÁFICO

´Guerra´ no São Miguel já provocou 17 mortes

01:54 · 25.09.2008
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Ontem, mais um jovem foi eliminado na comunidade. No domingo passado, um adolescente também foi executado

Subiu para 17 o número de mortos na ´guerra´ de traficantes que se desenrola, há meses, na comunidade do Conjunto São Miguel, em Messejana. Na manhã de ontem, um rapaz morreu e outros dois homens ficaram feridos, no terceiro tiroteio desde domingo. Foi a segunda morte em 72 horas. O pano de fundo é a disputa entre gangues pelo controle do tráfico de drogas na comunidade. Moradores da área dizem que estão sitiados e temem pelo assassinato de pessoas inocentes a cada novo confronto.

Depois da morte de um adolescente, no último domingo (21); e tiroteios entre bandidos e PMs na terça-feira (23), o clima era de aparente tranqüilidade, na manhã de ontem, quando, por volta das 10h30, três homens, que trafegavam num veículo Astra preto, chegaram no cruzamento da Avenida Isabel Alencar com a Rua Ozélia Pontes. Um deles desceu do carro e fez vários disparos.

O jovem Antônio Nielsen Silva, o ´Niel´, 25, usuário de drogas, foi atingido no peito e nas nádegas. Ele ainda tentou escapar, mais tombou sem vida. Já Marcos César da Silva Tavares, 26, que estava na companhia de ´Niel´ e foi apontado por policiais como traficante e usuário de drogas, sofreu um tiro no abdome e foi socorrido para o Instituto Doutor José Frota (IJF-Centro). O ciclista Geraldo Ferreira Barbosa, 46, foi a outra vítima da seqüência de balas no meio da rua. Ele foi atingido com um tiro na perna esquerda ao passar na Avenida Isabel M. de Alencar no exato momento em que os dois jovens eram alvejados. O ciclista também foi socorrido para o IJF-Centro. De acordo com paramédicos que realizaram os primeiros socorros, Geraldo Ferreira e Marcos César não correm risco de morte.

Policiais da Força Tática de Apoio (FTA) da 2ª e 4ª Companhias do 5º BPM (Messejana e Salinas), com o apoio de homens do Grupo Raio e do Ronda do Quarteirão, realizaram um cerco pela área, mas o atirador e os dois comparsas não foram localizados. O comandante da 2ª Cia. do 5º BPM, major George Benício, pediu o apoio da comunidade, mesmo de forma anônima, para a identificação e captura dos responsáveis pelo tiroteio.

Desespero

A mãe do jovem assassinado, Maria de Fátima da Silva, 52, entrou em desespero ao ver o filho morto e jogou-se sobre o corpo dele, abraçando-o com força e gritando por justiça. “Façam alguma coisa por nós, mães do São Miguel. Estamos perdendo nossos filhos.” Niel era o caçula.

TENSÃO PERMANENTE
Combate ao crime na área virou um desafio

Com o assassinato de Antônio Nielsen Silva, já são 17 as mortes registradas este ano no Conjunto São Miguel, em conseqüência dos confrontos armados entre traficantes de drogas da comunidade. A área, repleta de ruas estreitas e becos, transformou-se num desafio para as autoridades da segurança pública.

Embates constantes entre gangueiros traficantes a qualquer hora do dia já resultaram numa série de homicídios na comunidade, onde é elevado o número de pessoas desempregadas e de crianças e jovens fora da escola. Assim, fica aberto o caminho para os traficantes recrutarem clientes de drogas e gangueiros. Não por acaso, ocorre a permanente disputa entre os gangueiros traficantes pelo controle do ´território´.

Se não bastasse a circulação fácil de entorpecentes, armas de grosso calibre também são abundantes no Conjunto São Miguel. Diversas já foram apreendidas pela Polícia em poder de bandidos. Contudo, as ´perdidas´ são logo repostas pelas gangues.

Moradores se sentem sitiados, prisioneiros em suas casas. Sem dizer os nomes, por medo de represálias, afirmam que estão perdendo o direito de ir e vir ou simplesmente ficar na calçada de casa até tarde da noite. A qualquer hora pode ocorrer tiroteios entre os criminosos por mais espaço para o tráfico de drogas ali. Muitos sabem onde os bandidos escondem as armas, mas preferem calar. O silêncio gera a impunidade na comunidade.

Fernando Brito
Especial para Polícia



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