No Estado

Facções alimentam ciclo de violência

As taxas de homicídios registradas em 2017, são fruto da briga pelo controle do tráfico, conforme a SSPDS

01:00 · 13.01.2018 por Messias Borges / Emanoela Campelo de Melo - Repórteres

A violência cíclica do Ceará o emergiu em uma cadeia de mortes, alimentada pelo tráfico de drogas, que já tirou de muita pessoas a capacidade de se indignar com a perda de vidas. As soluções chegam devagar e, em 2017, não foram suficientes para impedir que o número de assassinatos chegasse a 5.134. No ano mais violento da história, a atuação das facções foi determinante para mostrar o perigo que tomou o Estado e que submete todos ao medo constante.

A estatística oficial divulgada, na tarde de sexta-feira (12), pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), mostra que o índice de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) - homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte - cresceram 50,7%, se comparado com o ano de 2016, quando 3.407 pessoas foram executadas.

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Para o Governo do Ceará, a grande maioria das vítimas da violência é, de alguma forma, envolvidas com a guerra travada entre as facções. No último mês de dezembro, 454 execuções foram registradas no Ceará. Destas, 179 aconteceram em Fortaleza. O segundo maior número de casos, se consideradas as regiões, foi contabilizado na Região Metropolitana, com 127.

De 2016 para 2017, houve aumento de CVLIs em todas as Regiões. O recorde de assassinatos fez com que o ano passado terminasse com uma média de 14 mortes por dia. Outubro foi o mês mais violento, com 516 vítimas de homicídios e latrocínios.

Em coletiva de imprensa para a apresentação dos dados, o titular da SSPDS, André Costa, afirmou estar empenhado na tentativa de solucionar o problema e reiterou que o Estado vive uma rotina de disputa por territórios promovida, pelas organizações criminosas.

"É uma série de dinâmicas que interfere para o aumento do CVLI. Há alguns anos, as facções já estavam presentes no nosso Estado, mas desde o início do ano passado houve um acirramento entre elas. Em grande parte, essas mortes são resultantes de disputas por mercado para o tráfico de drogas", afirmou.

Munições

Demonstrando poder e demasiada ousadia, a facção local, Guardiões do Estado (GDE), se envolveu até em um esquema de desvio de munições do Exército Brasileiro (EB). Uma fonte da Polícia Civil disse que grande parte dos 14 cartuchos, que teriam sido furtados por dois soldados, foram espalhados em vários pontos diferentes pela facção.

O titular da SSPDS disse que a maior parte das munições furtadas do paiol do EB, localizado em Maranguape, foi destinada a criminosos da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Ele negou que as munições tenham ido para a comunidade da Babilônia, no Barroso II, na Capital, de onde a GDE expulsou dezenas de famílias.

"Houve uma confusão porque há um traficante que tem um papel de liderança na Babilônia. Tinha, na verdade, porque nós prendemos vários e outros fugiram de lá. O mesmo apelido dele é o de um traficante da Região Metropolitana. Na verdade, a munição foi destinada para a Região Metropolitana", afirmou André Costa.

O secretário revelou, ainda, que uma parte das munições já foi recuperada pela Polícia. Entretanto, o titular da SSPDS se negou a dar mais detalhes da investigação do crime. "Nós estamos esperando fechar essa investigação, para, em coletiva, passar os detalhes", justificou.

Uma fonte do Exército revelou à reportagem que a Corporação, em parceria com a SSPDS, realizou uma operação, entre a noite da última quinta (11) e a manhã da sexta-feira (12), em uma comunidade da Grande Fortaleza, com o objetivo de localizar o restante da munição.

O assunto é tratado com extremo sigilo pela SSPDS e pelo Exército. Entretanto, a reportagem apurou que dois soldados foram presos, por suspeita de fazerem um buraco na parede do paiol e furtarem cerca de 14 mil munições de fuzil calibre 7.62.

O comando da 10ª Região Militar do Exército Brasileiro, responsável pelos estados do Ceará e Piauí, lançou nota oficial para afirmar que instaurou Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o que chamou de "desaparecimento" de munições das instalações da 2ª Companhia de Suprimento, em Maranguape.

Segundo a nota, o 'sumiço' dos cartuchos foi detectado em uma vistoria, realizada em 29 de dezembro em um dos paióis. "Foram constatadas divergências quantitativas entre a existência física e o Sistema de Controle Físico (Siscofis), instrumento de controle sistemático vigente em todo o território nacional que permite a gestão contínua de todo o material controlado do Exército Brasileiro", informou o comando da 10ª Região Militar.

Babilônia

Em relação à Comunidade da Babilônia, uma das mais problemáticas da Capital ultimamente, em relação às disputas pelo tráfico de drogas, André Costa afirmou que o Governo do Estado está procurando parcerias com outras instituições, que possam realizar projetos sociais para ocupar o espaço, aumentando a sensação de segurança.

Entre as instituições procuradas estão os clubes de futebol Ceará Sporting Club e Fortaleza Esporte Clube, igrejas católicas e evangélicas, a Prefeitura Municipal de Fortaleza, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

"Não queremos deixar isso a cargo apenas do policiamento. Mas a gente deixar o policial, realmente, como um garantidor. Quem quiser ajudar, com ações de prevenção social, vai poder ter acesso e andar livremente na comunidade".

Na última semana, dezenas de famílias deixaram a Babilônia, após serem expulsas pela GDE. As casas permanecem desocupadas e alguns dos moradores precisaram ser abrigados nas casas de amigos e familiares, em outros bairros, para fugir das ameaças da facção.

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