praia de Iracema

Dono do 'Bicho Papão' é executado no bar

Xico Canuto era contrário ao tráfico de drogas na área e havia relatado que sofria pressão de criminosos

O empresário foi surpreendido por um homem encapuzado, que entrou no bar e efetuou três disparos contra a cabeça dele ( Foto: Kléber A. Gonçalves )
01:00 · 04.07.2017
Xico Canuto era conhecido na região. Ia todos os dias ao bar, que funcionava há 30 anos, na Praia de Iracema

O proprietário do tradicional bar 'Bicho Papão', localizado na Praia de Iracema, foi executado a tiros por um homem encapuzado, dentro do próprio estabelecimento, na madrugada de ontem. Ninguém foi preso pelo assassinato de Francisco Nascimento Canuto, conhecido como 'Xico Canuto', até o momento. Segundo um irmão dele, que preferiu não se identificar, o empresário era contra o tráfico de drogas próximo ao 'Bicho Papão', que fica localizado na Rua Tremembés, e isto desagradava traficantes da área, que estavam pressionando-o a sair do local.

"Meu irmão travava uma luta diária contra o tráfico de drogas. Ele era um símbolo da resistência da Praia de Iracema antiga, poética, boêmia, mas não queria o tráfico aqui. Ele era muito conhecido pelos ricos e pelos pobres", afirmou.

Ainda de acordo com o familiar, Xico Canuto já tinha procurado a Polícia para denunciar o tráfico e as pressões que sofria. O empresário também utilizava as redes sociais para fazer denúncias e desabafar aos amigos. "Estou vivendo o meu pior momento na praia por não aliciar o Bicho Papão ao tráfico que hoje manda e desmanda na praia", postou Xico, em 25 de novembro de 2016, no Facebook.

Recentemente, há três dias, na mesma rede social, ele postou: "Não me busque na morte, e sim em vida". Conforme o irmão, Xico Canuto "vivia para o bar" e ia ao empreendimento todos os dias, mesmo doente. Viveu e morreu no Bicho Papão.

Na madrugada de ontem, um homem encapuzado parou uma moto próximo ao bar, andou em direção a Xico e desferiu três tiros na cabeça do empresário, que morreu no local.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou, em nota, que as investigações do caso, estão a cargo da 3ª Delegacia da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). "Imagens de câmeras de segurança foram colhidas no local e auxiliam nos trabalhos investigativos. Um inquérito policial foi instaurado e diligências estão em curso".

Memória

O 'Bicho Papão' está aberto há 30 anos, voltado ao público amante do reggae e do futebol. O irmão da vítima declarou que não sabe se o bar ainda funcionará. "Ele era o bar", concluiu.

O familiar ainda conta que Xico Canuto tinha uma visão democrática sobre a ocupação da praia. "Ele era uma pessoa democrática, que não tinha preconceito e defendia dias melhores para as pessoas que não eram vistas pelo poder público", completou.

Centenas de amigos e clientes da vítima usaram as redes sociais para deixar mensagens de despedida. Era como 'pai''que o cantor de reggae Andread Jó o tratava: "Você me ensinou muito sobre a vida, sobre reggae e sobre ser uma pessoa melhor. Palavras me faltam nesse momento para descrever o quanto eu te amo e o quanto sentirei sua falta! Descanse em paz, meu querido pai!", escreveu. "Praia de Iracema recebe um grande golpe, vai ser difícil vencer essa batalha sem a resistência e a solidariedade do Canuto", lamentou o internauta Xaui Peixoto.

Vítimas

A violência causada pelo tráfico de drogas faz vítimas diárias em Fortaleza e em todo o Ceará, seja pela disputa por território para comercializar drogas, ou para calar quem se coloca contra a prática ilegal e a denuncia. Somente neste ano de 2017, mais de 2.300 pessoas foram mortas. O número representa um aumento de cerca de 30% nos registros, em relação ao ano passado.

A SSPDS informou que o policiamento na Praia de Iracema é "realizado por equipes policiais do 8° BPM e também do Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur). Além das viaturas, composições do motopatrulhamento da Força Tática de Apoio (FTA) e do patrulhamento ostensivo a pé reforçam as ações".

Assim como Xico Canuto, um casal de comerciantes que não compactuava com as 'leis do tráfico' foi assassinado a tiros, na Barra do Ceará. Francisca Jocélia Ferreira da Silva e José Edson Alves do Nascimento, donos de uma pizzaria, tiveram a residência invadida e foram executados, no dia 24 de maio.

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