Unidade prisional

Detentos gravam vídeo ameaçando inimigos

De acordo com a Sejus, internos foram identificados e aparelhos utilizados foram recolhidos

00:00 · 22.01.2015
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Imagens mostram alguns internos utilizando aparelho celular dentro da antiga CPPL de Caucaia, conhecida como 'Carrapicho'; "Estamos chegando aí fora", dizem
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Perfil de usuário na rede social Facebook é mantido por outro detento, de dentro da cadeia; presidiário posta imagens e relata rotina, como visitas e vistorias
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Em 2009, foi realizado o primeiro teste com bloqueadores em unidades prisionais do Ceará, mas até hoje os equipamentos não estão funcionando ( FOTO: AGÊNCIA DIÁRIO )

"Estamos aqui no Carrapicho. O clima tá meio estressante. Bota isso aí no 'zapzap'. Estamos chegando aí fora. Só questão de tempo, estamos chegando, é sal. Aqui é o capeta, a fim de matar meio mundo aí fora, arrancar pescoço. Só os psicopatas, menino". A ameaça, em tom de brincadeira, foi feita em um vídeo divulgado nas redes sociais. Os personagens são internos da Unidade Penitenciária Francisco Adalberto de Barros Leal (UPFABL), antiga CPPL de Caucaia, conhecida como "Carrapicho". De dentro do presídio, o grupo gravou o vídeo e enviou para amigos através de redes sociais.

A denúncia foi enviada através da ferramenta VC-Repórter, por meio do aplicativo para smartphone Whatsapp pelo número (85) 8948.8712.

O material expõe a fragilidade do sistema penitenciário cearense, que ainda não consegue inibir a entrada de equipamentos eletrônicos e outros ilícitos nas unidades. Os bloqueadores de sinal telefônico, que já chegaram a ser testados, ainda não estão em funcionamento. Um protótipo chegou a ser produzido por pesquisadores cearenses e até está instalado em um presídio, mas não está em operação por falta de homologação (ver matéria coordenada).

Nas imagens do vídeo, os internos se divertem com um aparelho celular, onde gravam a mensagem que depois é enviada para os amigos. É possível perceber que pelo menos outros dois detentos também possuem telefones e demonstram estar em conversa nos aparelhos.

Afora o vídeo, a reportagem ainda localizou um perfil na rede social Facebook, em que o usuário afirma estar em um presídio no Interior do Estado. Ele publica fotos com outros detentos de dentro da cela e posta informações como quando recebe visitas ou quando há vistorias na unidade. Em algumas imagens, é possível ver que os presos possuem aparelhos celulares e televisor. Materiais similares a entorpecentes também são retratados nas fotografias disponíveis na página do presidiário.

Em uma das publicações, o interno relatou o dia em que prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). "Fiz a prova aqui dentro. Depois de preso que venho estudar direito", escreveu no perfil.

Medidas tomadas

De acordo com o titular da Secretaria da Justiça e Cidadania (Sejus), Hélio Leitão, as imagens do vídeo foram gravadas há alguns meses. Os internos que aparecem na gravação foram identificados e sofreram sanções disciplinares. Os aparelhos eletrônicos foram apreendidos.

"Muitos deles já não estão na mesma cela, foram transferidos. As imagens chegaram ao nosso conhecimento na sexta-feira (16) e imediatamente determinamos ao Grupo de Apoio Penitenciário (GAP) uma vistoria", afirmou. Segundo o secretário, foram apreendidos nove aparelhos celulares e 12 chips na cela.

Sobre o perfil no Facebook, Leitão disse não ter conhecimento prévio da denúncia mas afirmou ter encaminhado o link da página para a Coordenadoria de Inteligência (Coint) da Sejus. Segundo ele, o Setor irá investigar o suposto detento com a finalidade de descobrir em qual unidade ele está recluso, para ser feita a apreensão dos objetos e aplicadas as devidas sanções.

"Estamos tratando o problema com seriedade e profissionalismo. Essas pessoas têm que cumprir a pena dentro dos estritos limites da legalidade", enfatizou Hélio Leitão.

Bloqueadores são solução distante

De acordo com o titular da Secretaria da Justiça e Cidadania (Sejus), Hélio Leitão, aparelhos celulares, drogas e demais artigos proibidos adentram nas unidades prisionais, na maioria das vezes, levados pelas visitas dos presos. Segundo o secretário, desta forma, a alternativa percebida por ele para solucionar o problema é a instalação dos bloqueadores de sinal de telefone.

Contudo, a solução ainda não possui data para entrar em pleno funcionamento. Conforme Leitão, a questão é encarada como prioridade pela Pasta.

"Os bloqueadores são uma prioridade dessa gestão. Já existe um projeto, que contém cláusulas confidenciais, em caráter experimental. Resolvida essa questão, boa parte dos problemas estariam solucionados. Já determinei a convocação dos encarregados do projeto para avançarmos. O embaraço foi na homologação", esclareceu.

O projeto em questão é desenvolvido por pesquisadores de uma instituição de ensino cearense. As informações do equipamento são sigilosas. A reportagem obteve a informação, junto ao responsável direto pela pesquisa, que os protótipos de bloqueadores foram instalados e testados em uma unidade, mas não estão funcionando desde a Copa do Mundo. A expectativa é que sejam homologados até o próximo mês de julho.

Problema

Em novembro de 2009, o então titular da Sejus, Marcos Cals, realizou o primeiro teste de bloqueadores em unidades prisionais do Estado. Naquela ocasião, uma empresa da China ofereceu o equipamento para testes.

Atualmente, as unidades penitenciárias do Estado contam com seis equipamentos de bodyscanners instalados. O sétimo está previsto para iniciar o funcionamento até o fim desta semana na Casa de Privação Provisória de Liberdade I, em Itaitinga.

Em reunião de monitoramento semanal do programa Em Defesa da Vida na última terça-feira (20), na sede da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o governador Camilo Santana chegou a afirmar que "os grandes traficantes do Ceará estão presos, mas conseguem comandar o tráfico dentro dos presídios".

Na última sexta-feira (16), réus que, segundo a Justiça seriam integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e comandavam ações de dentro dos presídios, foram condenados por tráfico e associação para o tráfico.

Levi de Freitas
Repórter

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