Na CGD

Cinco pessoas depõem contra delegado

Delegado José Maurício Júnior foi levado à CGD e autuado pelos crimes de disparo de arma de fogo, lesão corporal, desacato e ameaça ( Foto: Kléber A. Gonçalves )
00:00 · 11.06.2018

Após uma confusão, cinco pessoas prestaram depoimento contra o delegado da Polícia Civil do Ceará (PCCE), José Maurício Vasconcelos Júnior, na Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), na madrugada de ontem. O titular do 30º DP (São Cristóvão) foi autuado pelos crimes de disparo de arma de fogo, lesão corporal, desacato e ameaça e conseguiu responder em liberdade, após passar mais de 12h preso.

Entre as supostas vítimas estão três policiais militares. A reportagem apurou que um dos PMs depôs que, ao abordar José Maurício - que estava alcoolizado -, o delegado o teria acusado de ser ladrão, ter roubado o seu celular e R$ 1 mil e extorquir traficantes, além de denegrir a sua atividade profissional.

Outro militar contou que o policial civil teria disparado palavras racistas contra ele e o ameaçou de falar com o seu comandante para tirá-lo do Batalhão ao qual ele serve. O terceiro PM também teria sido acusado de ser ladrão e ameaçado de ser transferido de função, a pedido do próprio delegado.

Uma mulher que presenciou a confusão afirmou, na CGD, ter sofrido dois chutes do delegado. Segundo ela, o policial também efetuou um tiro para cima e ordenou que todos saíssem do local. Ela fez o exame de corpo de delito, que verificou presença de lesões leves.

Acidente

A confusão teria começado após o veículo de José Maurício, um Jeep Compass, colidir com um automóvel utilizado por um motorista do aplicativo Uber, na Rua Olegário Memória, no bairro Sapiranga, em Fortaleza, por volta de 23h, do sábado (10). O motorista também depôs contra o delegado e relatou que estava com o carro parado, no momento do acidente.

O motorista acrescentou que ficou inconsciente por um tempo e ajudado por um homem. Depois, ele teria sido agredido com um tapa no rosto pelo policial civil. "Fui xingado, agredido, ameaçado. Me senti totalmente coagido. Ele pegava em mim, e a todo momento com a arma na mão. Quero apenas que ele pague meu prejuízo", afirmou, em entrevista à TV Diário.

Outro homem também teria sido agredido pelo delegado, que depois correu atrás dele com uma arma de fogo na mão, tropeçou e caiu. Segundo testemunhas, ele se levantou neste momento e disparou um tiro, que não atingiu ninguém.

Os policiais militares acionados para a ocorrência tentaram acalmar José Maurício, mas encontraram resistência e tiveram que imobilizá-lo para tirar a arma do seu poder e dar voz de prisão a ele. Com o policial, foram apreendidos uma pistola Ponto 40 e duas munições.

Liberdade

Após mais de 12h detido na CGD, o delegado José Maurício teve a liberdade provisória, sem fiança, decretada pelo juiz plantonista do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), Aluisio Gurgel do Amaral Júnior, a partir da solicitação da assessoria jurídica da Associação dos Delegados de Polícia Civil do Ceará (Adepol), representada pelo advogado Leandro Vasques.

O magistrado entendeu que não havia razão para decretar a prisão preventiva do policial, apesar da "certeza da materialidade delitiva e dos indícios de autoria". "Por outro lado, a sua conduta não teve gravidade especial, com vistas à finalidade de adentrar o sistema prisional, de modo a justificar medidas cautelares no caso vertentes, notadamente diante de sua primariedade e bons antecedentes", justificou o juiz.

Interrogado na CGD, o titular do 30º DP alegou que foi agredido por policiais militares e que apresentava lesões nos dois braços e nos rostos, além de roupas rasgadas. Ele confessou que ingeriu bebida alcoólica (cerveja) por volta de 18h30 no sábado (9), o que foi comprovado com por exame feito pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce).

O advogado Leandro Vasques afirmou que "as circunstâncias e detalhes do fato ainda deverão ser esclarecidas. Também existe um informe de que o delegado teria sido agredido e que teriam arremessado uma pedra no veículo dele. Não haveria razão de uma autoridade policial, um delegado, sair agindo graciosamente. Nós acreditamos que deva ter havido uma reação dele a uma ação, que exigiu dele essa postura. Mas vamos aguardar o desenrolar da investigação".

"Na qualidade de assessor jurídico da Adepol, eu apelo para que não se faça um pré-julgamento generalizado, uma vez que esse episódio se disseminou. É prudente que todos aguardem o desenrolar dos fatos, a elucidação dos detalhes, para no fim aguardarmos o veredito", complementou o defensor.

A CGD informou, em nota, que, além da autuação criminal, "determinou a instauração do competente procedimento disciplinar, para devida apuração na seara administrativa".

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