Investigação

Chacina no Benfica: dos 11 feridos, apenas 5 seriam os alvos

Segundo a Polícia Civil, a chacina tem muito mais a ver com uma briga de facções do que de torcidas organizadas

Na manhã de ontem, o jovem Adenilton da Silva Ferreira, o 'Mascote', foi sepultado. Emocionados, parentes e amigos lamentaram a morte e disseram que ele não era envolvido com atividades criminosas ( Foto: Kid Júnior )
01:00 · 12.03.2018 / atualizado às 07:46
A matança, ocorrida em três pontos do bairro Benfica, conhecido como região de alegria da cidade, deixa Fortaleza triste e inerte diante da violência ( Foto: Cid Barbosa )

A barbárie registrada na Praça da Gentilândia, no bairro Benfica, teria sido premeditada. De acordo com fontes da Polícia Civil, pelo menos cinco pessoas eram alvos dos atiradores. Na ação, onze pessoas foram feridas. Sete morreram ainda na sexta-feira (9), enquanto três permanecem internadas, sendo duas no Instituto Doutor José Frota (IJF), e outra em um hospital particular da Capital.

Conforme a reportagem apurou, além das cinco vítimas marcadas para morrer, outras três teriam sido atingidas por estarem utilizando roupas com as cores do time do Fortaleza. As outras três teriam sido assassinadas por "estarem no lugar errado, na hora errada, nas companhias erradas", segundo o policial. Conforme a fonte, há quem tenha morrido apenas por estar próximo de um alvo.

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Despedida

"Vai com Deus, vai com Deus!", gritava em prantos Gilma Angélica Furtado - irmã de José Gilmar Furtado de Oliveira Júnior, 33 anos, uma das vítimas da Chacina do Benfica, ocorrida na última sexta-feira - enquanto via o corpo ser sepultado, ontem, no cemitério Jardim Metropolitano, no Eusébio. Lágrimas, gritos, declarações de afeto e músicas marcaram o enterro. Comovidos, parentes e amigos renderam as últimas homenagens a Júnior, que foi atingido no tiroteio da Praça da Gentilândia. Enquanto ocorria o sepultamento, músicas de axé foram entoadas em ritmo lento, tom baixo e emocionado. Júnior, diziam alguns amigos no local, "era alegria".

Após o enterro, amigos e parentes evitaram falar sobre a tragédia ocorrida no Benfica. A irmã da vítima, declarou apenas: "Não há muito o que falar, sabemos que Justiça só divina".

Em cerimônia fechada a amigos e familiares, também foi sepultado, ontem, Adenilton da Silva Ferreira, o 'Mascote', morto na sede da Torcida Organizada do Fortaleza (TUF). Na despedida, uma grande salva de palmas e, em uma só voz, ecoava a frase: "Guerreiro, Mascote guerreiro".

O jovem tinha emprego fixo e nunca havia sido preso. "Ele não era envolvido em nada de gangue, de facção. A nossa Segurança é que está precária. Ele trabalhava em uma fábrica de cintos. Meu filho só tinha 24 anos, ia fazer 25 nesta terça-feira (13)", destaca, emocionado, o pai de Adenilton, Francisco Otacílio da Silva Ferreira. "Ele gostava sempre de ir à TUF, mas ele não andava com esse negócio de briga. Ele ia lá porque gostava. Era um lazer que ele tinha, para falar com os colegas. Eu digo porque conheço o meu filho, se tivesse errado, eu chegaria para você e diria", acrescenta Otacílio.

Além de tristeza, o sentimento era de indignação entre os presentes devido às declarações de que o ataque estava relacionado a uma briga entre torcidas organizadas. "Sede é sagrada. Isso não é coisa de torcida", pontua um dos membros da TUF, e amigo de Adenilton.

A suspeita de alguns membros da torcida, que conversaram com a reportagem, é que a morte esteja relacionada à apreensão de quatro armas de fogo e dois coletes balísticos, realizada no dia do último Clássico-Rei, do dia 4 de março. Na ocasião, membros da torcida organizada do Fortaleza informaram à Polícia sobre homens armados dentro de um HB20. Três pessoas foram presas, entre elas um dos autores dos disparos que vitimaram Caio César Siqueira Sisnando, 32, no dia 31 de janeiro, na CE-040, no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza.

Sobrevivente

Dentre as pessoas que aguardavam a liberação dos corpos na Perícia Forense do Ceará (Pefoce), uma experimentava um misto de sentimentos, no último sábado (10). Era a namorada de Antônio Igor Moreira, 28, morto na Praça da Gentilândia.

A mulher, que pediu para não ser identificada, presenciou toda a cena, mas conseguiu escapar. O casal estava com um grupo de amigos, participando de uma calourada e se encaminhou, na sequência, para um bar na Gentilândia.

A noite do casal foi interrompida pelo som dos tiros e a gritaria. Um homem, que estava próximo a Igor, foi atingido. Ela conta que, em meio ao caos, conseguiu correr e se esconder, escapando dos disparos. O parceiro dela não teve a mesma sorte. A mulher viu o namorado já caído, ferido pelos tiros e, provavelmente, sem vida.

"Foi uma barbaridade, um ato de crueldade. Estávamos no lugar onde gostávamos de nos divertir e fomos pegos de surpresa. Ele foi um dos primeiros atingidos. Só vi gente correndo para debaixo das bancas e os bandidos armados atirando" relembrou ela, emocionada.

As famílias das demais vítimas, ainda em choque com a perda dos entes, optaram por não falar com a reportagem sobre a chacina.

MPCE quer extinção das organizadas

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Na última sexta-feira (9), membros da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) foram mortos na entrada da sede da Associação e nos arredores

Horas após os ataques, por meio de nota pública, o Ministério Público do Ceará (MPCE) cobrou a imediata extinção das atividades da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), Associação Torcida Organizada Cearamor e Torcida Organizada Jovem Garra Tricolor (JGT). Conforme a nota, as três associações estão, frequentemente, ligadas às práticas criminosas no Ceará, que envolvem "atos de vandalismo, violência física e assassinatos, gerando temor à sociedade".

A Instituição evidenciou que, desde abril de 2013, por intermédio do Núcleo do Desporto e da Defesa do Torcedor (Nudtor), peticionou a imediata extinção das atividades das torcidas organizadas. O promotor de Justiça e coordenador do Núcleo do Desporto e da Defesa do Torcedor (Nudtor), Edvando França, contou que houve uma sentença favorável à ação movida pelo MPCE em 2013. Porém, as torcidas em questão recorreram e o processo permanece em grau de recurso, aguardando julgamento.

Alegações

Ao analisar os fundamentos de cada umas das três associações, o Ministério Público afirmou que todas elas "têm adotado como finalidade, na prática, a disseminação da violência". Em resposta, as torcidas interpuseram apelações alegando não ser comprovada responsabilidade por crimes, possivelmente, promovidos pelos torcedores. Edvando França diz que a expectativa é que, agora, o Tribunal de Justiça decida pelo fim das associações.

"Entendemos que as torcidas que estão relacionadas ao crime organizado, não podem existir. Claro que não são todas que apresentam essa relação. Cada clube tem de 15 a 20 torcidas organizadas. Elas perdem o controle dos seus integrantes", disse.

Um policial civil que conversou com a reportagem disse que a ordem da chacina não partiu das torcidas, mas de integrantes delas ligados a facções. "Não foi nenhuma torcida, enquanto associação, que determinou. São membros, que além de torcedores, são ligados às facções. As autoridades da Segurança Pública do Ceará têm errado muito em colocar culpa em organizações e não em pessoas. Desse jeito não se chega nunca aos culpados", considerou.

No dia seguinte à Chacina do Benfica, TUF e Cearamor se pronunciaram. Por meio de nota oficial, as organizadas descartaram que os crimes da última sexta-feira tivessem relação com rixa entre os times.

"Afirmamos que o fato ocorrido não possui vínculo algum com possível rivalidade entre as torcidas organizadas da capital", informou a TUF. Também por meio de nota, a diretoria da Cearamor disse que o fato foi mais um episódio de violência do Estado do Ceará e que as autoridades precisam trabalhar mais para evitar novos casos como o da noite desta sexta-feira.

Nos últimos 15 anos, confrontos entre torcidas deixaram, pelo menos, 26 pessoas mortas no Ceará. A maior parte dos homicídios aconteceu em dias de jogos, contra pessoas que usavam uniformes de algum time.

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