Reportagem

Apreensões de ecstasy em 2017 pela PF superam o ano passado

01:00 · 18.09.2017

Faltando pouco mais de três meses para o fim de 2017, o Ceará ultrapassou a média do ano passado em apreensões de drogas sintéticas. De janeiro a setembro, a Polícia Federal tirou de circulação 46.823 comprimidos de ecstasy que chegaram a Fortaleza em voo internacional. Já no somatório de 2016, a quantidade de substâncias retidas alcançou a marca de 1.697 ilícitos. Para além dos resultados, esses números refletem ainda o avanço desenfreado do comércio de entorpecentes em um curto espaço de tempo.

Isso porque, parte do montante apreendido, é resultado de uma única ação da Delegacia de Repressão aos Entorpecentes (DRE), da PF, no dia 6 de setembro último. A Especializada foi chamada ao Aeroporto Internacional Pinto Martins, após a Receita Federal identificar drogas na bagagem de uma passageira por meio de Raio-X. Durante inspeção, os policiais localizaram 46 mil unidades de ecstasy com uma mulher, de 24 anos, que havia trazido o material da Europa. A suspeita foi autuada por tráfico internacional.

O número de apreensões teve um salto ainda maior com outras duas operações, realizadas no mês de agosto. A PF descobriu uma nova modalidade de tráfico de sintéticos no Estado. Em viagens separadas, dois homens, naturais de Santa Catarina (SC), trouxeram de Portugal 7 quilos de MDMA, substância em pó usada na fabricação de ecstasy, mas que pode ser consumida também individualmente. Com o volume recolhido, o laudo pericial apontou que outros 46 mil comprimidos da droga poderiam ser preparados.

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A cada apreensão registrada pela Polícia Federal, o perfil de quem traz os entorpecentes vai sendo construído. De acordo com o delegado federal Aldair da Rocha, são homens e mulheres escolhidos por intermediários de traficantes. "Geralmente, o chefe do tráfico contrata outras pessoas para arregimentar essas 'mulas'. Eles procuram pessoas que estejam em situação de dificuldade financeira, e hoje não é difícil você encontrar alguém que esteja desempregado", explica.

Estabelecido o contato, as "mulas" são enviadas à Holanda, onde ficam até 10 dias esperando a mercadoria ser entregue. "Os intermediários compram a passagem aérea da pessoa para a Europa. Chegando lá, eles ficam hospedados em um hotel, aguardam o recebimento da mala e fazem o retorno", diz Aldair da Rocha.

Com os comprimidos de ecstasy devidamente armazenados nas bagagens, eles seguem viagem na rota do tráfico de drogas sintéticas. Antes de chegar em Fortaleza, destino final da droga, o entorpecente passa por Lisboa e termina o trajeto na Capital cearense.

Se por um lado quem transporta a droga depende do serviço para garantir uma renda, em território local o ilícito é repassado para pessoas com alto poder aquisitivo. Segundo a titular da Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD), da Polícia Civil, Patrícia Bezerra, o comércio de substâncias sintéticas se diferencia ainda da venda de drogas convencionais, tanto pelo modo como opera quanto pelo público-alvo.

"Em quase 95% dos casos, eles integram camadas sociais elevadas. São pessoas bem nascidas, culturalmente abastadas, no sentido de terem acesso à informação, à escolaridade. São jovens muito bem vestidos e com aspecto saudável. Já prendemos vários estudantes universitários fazendo tráfico de sintéticos, algumas vezes até dentro de faculdades particulares. Pouquíssimas vezes, a gente vê o envolvimento dessas pessoas com armas de fogo, ao contrário do que acontece com a droga tradicional", acentua.

Inicialmente distribuído em áreas nobres da Capital, a venda da droga tem migrado para bairros mais afastados dos centros comerciais. Conforme Patrícia Bezerra, as apreensões iniciais miravam os pontos de vendas na Aldeota, Meireles e no Papicu. "Foi somente no final de 2016 que nós fizemos a primeira apreensão no Conjunto Ceará, e depois no Montese. É como se o tráfico de sintéticos estivesse se espalhando pela cidade", conta.

Esta descentralização da droga, inclusive, fez com que a Polícia Civil capturasse, na última quarta-feira (13), duas pessoas suspeitas de tráfico. Em nome de Klleryston Ítalo Moreira Gomes, preso no bairro Dias Macedo, havia uma encomenda com 54 comprimidos de ecstasy, enquanto para Antônia Kamila Bezerra da Silva, 33 comprimidos em outra correspondência. A droga seria vendida em uma festa rave, no município de Caucaia.

Entre comprimidos de esctasy e selos de LCD, a DCTD registra até setembro deste ano, a apreensão de 7.519 unidades de drogas sintéticas. Em igual período de 2016, o número era de 7.108 ilícitos. Se comparadas, as quantidades representam um aumento de 5,78% em drogas retidas.

Consumo de sintéticos ganha força em raves

Envolvidos no som das raves, eventos de longa duração que trazem músicas eletrônicas no repertório, jovens têm marcado presença atraídos também pelas drogas sintéticas consumidas nas festas. Pelo menos é o que pensa a titular da DCTD, Patrícia Bezerra, com base em investigações, que apontam ainda um "comércio livre" de ilícitos nas baladas.

"Se não existisse a rave, não havia o tráfico de ecstasy, porque é lá que existe o consumo. Não existe interesse por parte dos organizadores em barrar a entrada da droga porque a festa não vai render, não vai ser boa. O consumidor do evento não vai curtir a festa, se não tiver a droga", diz.

Uma estudante ouvida pelo Diário do Nordeste, que teve a identidade preservada, contou à reportagem que o repasse da droga pode ser viabilizado dentro do evento, com preço mais elevado. "Sempre tem alguém que passe. Alguém que comprou para consumo próprio, mas não vai usar, então vende um pouco mais caro do que conseguiu", pondera.

Segundo Patrícia Bezerra, uma estratégia utilizada pelos traficantes é a antecipação da venda. "Depois que a DCTD intensificou esse trabalho nas raves, o traficante procura se antecipar ao máximo para correr menos risco de ser alcançado pela Divisão. À medida em que a festa vai se aproximando, o preço vai subindo".

Para a estudante, que deixou de ir às festas por conta da gestação, esta abordagem da Polícia atrapalha a diversão do público. "Tinha muito policial revistando, o tempo todo, olhando de cara feia para você. Isso é ruim, e estraga o clima e a verdadeira intenção que a festa quer proporcionar", alega. Ela admitiu ter usado ecstasy e LSD pela primeira vez em uma rave, mas disse que não foi influenciada pelo meio. "Já conhecia alguns amigos que usavam. Às vezes você vê a oportunidade de usar lá". (Colaborou Felipe Mesquita)

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