tráfico de drogas

Agressividade sem precedentes no Ceará

01:00 · 02.07.2018

Sequências de ataques sem precedentes surpreendem a população cearense, desde o ano de 2016. A visível demarcação de territórios para o tráfico de drogas, que motiva milhares de mortes no Estado, e a despreocupação dos criminosos em haver condenações por parte do Poder Judiciário fazem com que uma pergunta persista: Até onde a ação das facções vai chegar?

Quatro facções atuam de maneira mais incisiva no Ceará: três com ação nacional e uma local. As estratégias pensadas para o combate específico a estes grupos criminosos parecem não amedrontar os arregimentadores do crime. Criada na periferia de Fortaleza, em 2015, e fortalecida há dois anos, a Guardiões do Estado (GDE) já demonstrou, com barbáries, que age diferente dos demais grupos.

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Com poder descentralizado e ânsia de impor um 'tribunal do crime' com regras próprias, os membros desta facção se valem do terrorismo e substituem apressadamente suas lideranças. O que prevalece é o interesse do momento.

Segundo uma fonte ligada ao Setor de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), e que atua nas ruas para combater as facções criminosas, a GDE se estruturou primeiramente nas grandes penitenciárias da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Hoje, a facção tem, pelo menos, 20 líderes conhecidos das autoridades. Aproximadamente metade deles estão encarcerados. Um policial, que optou por não ter seu nome revelado, contou que João Bosco da Rocha, o 'João Presinha', foi quem ajudou a financiar a organização no início.

Já em 2018, após uma série de ameaças dos rivais, 'João Presinha' foi morar fora do Ceará e teria designado um grupo de familiares para dar continuidade ao negócio. "Ele tem um filho solto e um gerente que tomam conta do Lagamar, Pio XXII, Cidade de Deus e a Comunidade Maravilha", disse o policial.

Para a fonte ligada à Inteligência da Secretaria, o poder descentralizado mostra que não há uma estrutura financeira estável, mas acordos para ajudas mútuas na logística da distribuição de drogas. "Não tem um comando único que diga o que deve ou não deve ser feito. Por isso que eles matam muito. Essa história de baixar vidro, espalhar 'salves' e pichar muro demarcando território se tornou forte depois deles", disse o servidor da SSPDS.

Células

Apesar do poder descentralizado, a cúpula da GDE tem posições almejadas pelos criminosos que ingressaram há pouco tempo na organização. Na Chacina das Cajazeiras, um grupo denominado "Os Quebra Cocos (OQC)" ou "Tropa do Misael" foi designado para cumprir a ordem do massacre. Conforme o inquérito, o responsável por este bando é Misael de Paula Moreira, o 'Afeganistão', um dos dois envolvidos na matança, que permanecem foragidos.

A entrada na tropa seria cobiçada, por ser considerada um "grupo de elite", cuja função seria assassinar os inimigos, e ter na chefia uma das maiores lideranças. Além de Misael, os autos apontam que Noé de Paula Moreira e Djair de Souza Silva, também mandantes da maior chacina do Estado, seriam líderes da facção e membros de um 'conselho' interno, responsável por definir os rumos da organização.

Noé de Paula Moreira está preso no Instituto Penal Professor Olavo Oliveira (IPPOO) II e Misael segue foragido; os dois são líderes da região do bairro Siqueira. Já Djair foi preso no dia 5 de janeiro de 2018, em um apartamento de luxo, no Cocó. Souza é tido como um cofundador da organização criminosa.

Outros dois apontados pela Polícia como mandantes da Chacina das Cajazeiras também são líderes regionais. Zaqueu Oliveira da Silva comanda a Comunidade da Rosalina; e Auricélio Sousa Freitas, o 'Celim', a 'Babilônia' e o 'Barroso II'.

Uma das primeiras, e mais ousadas ações da facção, foi direcionada às autoridades. Em abril de 2015, um carro com explosivos foi posto em frente à sede da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Na declaração de autoria do atentado havia exigência de suspender o processo de instalação dos bloqueadores dos sinais telefônicos nos arredores das prisões cearenses.

Um ano depois, Fortaleza e RMF viveram a maior sequência de ataques a ônibus e prédios públicos. A GDE assumiu os atentados e revelou que a motivação do colapso causado nas ruas, era a divisão dos presos por afinidade dentro das penitenciárias. À época, representantes de entidades ligadas ao Sistema Penitenciário disseram que o Estado havia cedido à exigência para cessar os ataques. As autoridades de Segurança negaram.

Buscas por soluções

A SSPDS informou que, no ano de 2016, foi criada a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) da Polícia Civil e, desde então, foram realizadas 146 prisões. Neste ano, as ações da Especializada resultaram na instauração de 113 procedimentos. A Draco é responsável por mapear a atuação das facções em todo território cearense, investigar os líderes desses núcleos criminosos e desestabilizar esquemas que sustentam as organizações.

Em nota, a Pasta divulgou que outras medidas importantes foram, como a oficialização do Estado como sede do Centro Integrado de Inteligência do Nordeste, a criação da Vara de Delitos de Organizações Criminosas e aumento do efetivo policial. A fonte ligada à Pasta, que conversou com a reportagem ressaltou que a maior presença da PM nas ruas é importante, porém, "não é só mais a Polícia para resolver".

Conforme o PM, o Governo peca em ainda não ter instalado os bloqueadores de sinais de telefones. "Estou nas ruas e vejo o que acontece. O combate exige Polícia fortalecida, Justiça rigorosa e Sistema Prisional eficiente. Sem um desses, tudo falha".

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