Chacina das Cajazeiras

Acusado de comprar soltura foi mandante de massacre

01:00 · 02.07.2018 / atualizado às 16:17

Djair de Souza Silva, de 29 anos, é um antigo conhecido das polícias Militar, Civil e Federal no Ceará. O homem apontado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) como um dos mandantes da Chacina das Cajazeiras também é alvo da'Operação Expresso 150'.

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A ofensiva da Polícia Federal (PF) que tornou pública a venda de liminares nos plantões judiciários do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), aponta Souza como um dos traficantes beneficiados, ilegalmente, com uma ordem de soltura expedida pelo desembargador Carlos Rodrigues Feitosa. O magistrado, teria recebido R$ 150 mil, pela concessão do habeas corpus, conforme as apurações das negociatas.

Segundo a PF, a liminar foi concedida no dia 7 de julho de 2013. Quase cinco anos se passaram para que as autoridades reencontrassem Djair. Neste meio tempo, no qual ficou solto, a GDE foi criada. Feitosa, por sua vez, passou a ser réu de um processo, que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Após a descoberta das supostas vendas de decisões envolvendo o desembargador, as participações de outros quatro magistrados do TJCE e dezenas de advogados foram evidenciadas. Carlos Feitosa teve seu gabinete revistado por policiais federais. Ele segue afastado das funções, mas ainda não foi julgado.

O processo em trâmite no STJ, está concluso para despacho do ministro Napoleão Nunes Maia Filho. Enquanto isso, por decisão do Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE), o auxílio moradia do investigado está mantido.

Reincidência

Sob proveito da soltura, devido à possível compra do habeas corpus, Djair permaneceu agindo no 'mundo do crime'. De acordo com uma fonte ligada ao Setor da Inteligência da SSPDS, a entrada do traficante na GDE aconteceu ainda em 2015. No início, sua função era distribuir drogas.

"Ele era um simples soldado do 'João Presinha'. Atuava no Tancredo Neves, mas foi ganhando espaço. Acabou preso novamente neste ano e, mesmo assim, continua conseguindo despachar drogas. Ele faz isso de dentro do presídio e tem poder na Capital e em parte da Região Metropolitana, como a cidade de Maracanaú", disse a fonte.

O advogado criminalista Cândido Albuquerque, diretor da Faculdade de Direito da UFC, afirmou que, em parte, o ganho de força das facções no Estado está vinculado aos fatos investigados na 'Operação 150'. Para Albuquerque, é preciso agilidade na apuração da responsabilidade das vendas de liminares aos criminosos, como Djair.

"Sentença se consegue com base na argumentação jurídica, e não com base em dinheiro. Quantos presos foram transferidos ilegalmente e depois soltos? No momento em que se soltam membros de facções, o Estado se destrói. Nunca se avaliou a gravidade dos feitos na Expresso", disse o especialista sobre como as solturas indevidas colaboraram para o aumento da insegurança no Estado.

A defesa de Djair Silva, representada pelos advogados Paloma Gurgel Cerqueira e Filipe Pinto, negou a participação do cliente na Chacina. "O que se nota é que as autoridades tentam dar uma falsa resposta a sociedade sobre a realidade da trágica chacina das cajazeiras, só que o que está sendo veiculado não é a realidade dos autos. No que pertine ao meu cliente, não há comprovada quaisquer que seja, ordem ou aquiescência do mesmo com a fatalidade ocorrida", enfatizou, em nota.

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