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Wislawa Szymborska

00:00 · 31.03.2018

A escritora polonesa Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel de Literatura de 1996, talvez seja o exemplo bem-sucedido da construção poética que envolve o riso. Ela ficou conhecida por seus versos que cultivavam o humor diante da real e séria condição humana, extraídos do cotidiano, quando anotava em guardanapos ou qualquer tipo de registro, fatos ou imagens engraçadas, criando diversas brincadeiras poéticas, do tipo "Riminhas para crianças grandes" (Rymowanki dla duzych dzieci), ou mesmo subgêneros por ela inventados ou aperfeiçoados: Dasvodcas (Odwódki); Melhoríadas (Lepieje); Escutações (Podsluchance) e Limeriques.

Desaparecida em 2012, aos 90 anos, a irreverente Szymborska desenvolveu Dasvodcas a partir do dito polonês "od wódki rizum krótli" (da vodca, a mente fica curta), sem apelo para moderação ou comportamento adequado socialmente.

Nesse modelo inventado, cria uma série de provérbios plastificados sobre vários nomes de bebidas, sempre marcados pela brevidade, manobras de sentidos e bom humor. Brinca no seguinte poeminha: "Da cerveja, o usuário cacareja. Da pinga, a barriga te xinga".

Em Melhoríades, os versos nasceram de um cardápio de uma estalagem na periferia da cidade, onde, ao lado do nome de uma sopa, algum cliente escreveu, com caligrafia trêmula, a palavra "horrível".

Diante dessa piada pronta, mantida no menu, a poesia teria também a mesma função social em alertar os comensais sobre perigos ocultos em restaurantes pouco conhecidos. Advertiu: "melhor ter a sogra vesga em seu lar, que ovo com maionese aqui devorar. É melhor um fim amargo, que pedir aqui aspargo".

As Escutações foram poemas construídos a partir de conversas ao longo do cotidiano junto a filas, bancos de jardins, esperas e viagens de bonde. Experimenta a prosa, ao narrar que "no começo eu gostava de todas as mulheres: gordas, magras, velhas, novas, louras, morenas". Com o passar dos anos, ficou seletiva: "melhor as jovens, melhor as louras do que as de cabelos escuros e melhor ainda as de cabelos castanhos, magras, mas não esqueléticas".

Nos versos finais, ela revela: "depois disso, comecei a apreciar lâmpadas à meia-luz, música baixinha, roupa íntimas transparentes e dois cálices de um bom vinho na mesinha". Conclui: "eu pensei que o meu bom gosto estava cada vez mais apurado, mas era início da impotência".

Os Limeriques não são suas invenções, mas Szymborska praticou criativamente ao logo de sua carreira literária, inclusive compartilhando com outros poetas de seu tempo, quando enaltecia viagens, momentos e lugares.

A propósito, ela se reporta a um fato ocorrido na Casa Branca, certamente engraçado. Diz: "certa Monica de Washington não se atinha ao bom-tom e por isso no salão oval atuou no sentido oral acompanhada de bom som".

Durval Aires Filho. Desembargador

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