editorial

Valorizar o magistério

00:00 · 03.07.2018

Se não morre aquele que escreve um livro e planta uma árvore, com mais razão não morre o educador que semeia a vida e escreve na alma". A frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht sintetiza a relevância do ofício do bom professor, cujo exercício tem alcance imensurável no futuro dos cidadãos.

No entanto, essa nobre profissão, não obstante a monumental influência que exerce na formação da sociedade como um todo, vem tendo a imagem gradativamente deteriorada no Brasil.

Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), obtidos a partir do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), apontam que está caindo vertiginosamente o interesse dos jovens brasileiros pelo magistério. O questionário, revelado neste mês de junho, consultou adolescentes de 15 anos.

Apenas 2,4% deles manifestaram vontade de seguir a profissão. Dez anos antes, a proporção de interessados declarados era de 7,5%, o triplo. Conforme os critérios da OCDE, o percentual considera somente os indivíduos que aspiram à atuação como mestres em escolas do Ensino Básico e Médio.

Há outro aspecto levantado pelo estudo que desperta atenção: os estudantes que admitem ser professores possuem, na média, notas piores no Pisa em relação aos alunos que elegem outras carreiras, como engenharia, medicina, ciências sociais etc.

O levantamento apurou que a fenda é ainda mais esgarçada nos países que tiveram performance pior no Pisa, estando o Brasil incluído nessa faixa. Ele ficou em 65º lugar de 70 países avaliados em matemática. Em ciências, foi o 63º e, em leitura, o 59º. O Pisa é uma avaliação reconhecida em todo o mundo, aplicada a cada três anos, abrangendo leitura, matemática e ciências.

No Brasil, conforme as informações da OCDE, os alunos que expressaram a meta de se tornarem professores obtiveram a média de 382 pontos em leitura e 354 pontos em matemática, enquanto os que perseguirão outras carreiras formais atingiram, respectivamente, 427 e 390.

A divergência na pontuação dessas duas categorias de alunos também foi observada em outras nações, como Portugal, Turquia e Uruguai. Já na Coreia do Sul, no Japão e na Áustria, por exemplo, os grupos mostraram paridade. Um dos principais entraves é o salário. A remuneração média dos professores nos ensinos Básico e Médio é baixa relativamente ao que outras profissões alcançam.

A desigualdade não ocorre apenas aqui. Na média dos países-membros da OCDE, o salário de professores com formação superior que lecionam no 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental equivale a aproximadamente 80% do que ganham os demais trabalhadores de igual nível acadêmico.

No Brasil, nas escolas públicas, esse patamar não chega a 75%. Os preocupantes números evidenciam a necessidade de políticas públicas que venham a restabelecer a relevância do ofício de ensinar, tornando-o novamente atrativo para a população jovem.

Não só o salário, como também as demais condições de trabalho do exercício precisam de imperativas melhorias, incluindo a carga horária, a infraestrutura escolar e a possibilidade de crescimento dentro da carreira.

Se houve profunda queda no interesse pelo professorado no País, muito da culpa recai sobre os governos, os quais falharam em valorizar essa que é uma das profissões mais reverenciadas. A educação é o vetor do desenvolvimento e o professor, o seu agente facilitador.

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