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Tesouro de Matusalém

00:00 · 13.01.2018

Findo o dia de proveitosa visitação à Universidade de Coimbra, dei-me em caminhada pela avenida margeadora do Mondego até o Largo da Postagem. Ali, em lanchonete, deleitei-me com bolinhos de bacalhau e gelada cerveja.

Naquela de viajante descompromissado com o mundo, olhar na busca de um nada perdido, ouvindo a babel de turistas e vendo passantes aligeirados, hábito lusitano.

Ainda no segundo petisco, tulipa ao meio, escutei o rápido sotaque português. "Boa-noite! e licença para falar consigo". Idoso, cabelos brancos de prateado brilhante, farto bigode e expressão de placidez, levou-me a emprestar atenção.

Convidei-o a sentar. Ofereci-lhe bebida e salgadinho. Agradeceu e disse aceitar um "sumo de laranja". Enquanto, lentamente bebíamos, depois de pedir-lhe que falasse em 33 rpm e explicar-lhe o significado, ele se lembrou dos long-playing e dos discos de cera, pronunciando com vagar as palavras.

E passou a oferecer-me algo misterioso, bíblico, respeitados os princípios e as proporções. Conhecimento do futuro ano. Mês a mês e seus oráculos. Como e quando praticar a agricultura e a pecuária. Exatos horários do nascer e do ocaso do Sol. Épocas precisas e as durações dos eclipses solares e lunares, totais e parciais.

Mensagens astrológicas para os nativos de todos os signos zodiacais. As melhores visibilidades planetárias. Dias feriados, santificados e de guarda religiosa. Provérbios relativos a cada dos meses. Informações outras e, inclusive, o Juízo do Ano, apreciação esotérica para acontecimentos de 2018.

A totalidade dessa sapiência por apenas 2 euros e 20 cêntimos. Abrindo sua surrada pasta, tirou um exemplar impresso do "ofertado tesouro". E garantia maior era ele próprio, asseverou.

Sacou do bolso um documento de reformado (aposentado), onde se lia: Matusalém Enoch Barros, nascido em Ponte de Lima, em 13/05/1932 e outros dados. Prosando, redargui estar o certificado com a data do nascimento errada, no que, um tanto atônito, fitou o cartão, declarou correta e indagou o porquê da afirmativa.

Devido à Bíblia! Matusalém viveu 969 anos. Não era luso. Tampouco vendedor. Jamais vestira paletó ou portara bolsa. E, ao possuir qualquer dúvida, dirigia-se ao Senhor - brinquei. Matusalém riu, rogou a Deus bênçãos para mim e meus familiares. A descontração e surpresa fez-me esquecer de fotografar o encontro.

Paguei, guardei e conservo o folhetim "O Verdadeiro Almanaque Borda D'água: Repertório Útil a Toda Gente - Para 2018". 89 anos de publicação - Editorial Minerva - Rua Luz Soriano, 31/33 - Lisboa, Portugal. Poesia de Fernando Pessoa abre e enriquece a edição: "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente".

Geraldo Duarte. Advogado e administrador

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