editorial

Sinais de alívio

00:00 · 24.04.2018

As chuvas no mês de março ficaram abaixo da média, e a confiança da população cearense ficou abalada quanto à eficácia da quadra chuvosa neste ano. As precipitações deste abril, porém, reacenderam a esperança geral incentivada pela transformação verde na paisagem do Interior e da Capital. A poucos dias do encerramento do mês, a média de chuvas no Estado, que chegou a ser calculada em 189,1mm no último dia 19, já havia superado o volume que era esperado para todo o período de 30 dias, segundo apresentou a Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos).

O surpreendente volume das últimas chuvas também trouxe alívio à situação de vários reservatórios hídricos distribuídos pelo Estado. No decorrer do mês, foram registrados altos índices de pluviometria em municípios das regiões do Cariri e Norte, onde estão localizados afluentes de rios que deságuam em reservatórios importantes para a manutenção do abastecimento. Esse resultado positivo provocou aportes significativos em barragens como o Castanhão, Araras, Itaúna, Orós e Colina. De acordo com a Cogerh (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos), até o último dia 17, 20 açudes estavam com mais de 100% da capacidade preenchida.

A população de Quixeramobim, na região do Sertão Central, uma das áreas mais castigadas pelo prolongado ciclo de estiagem, também viu as chuvas de abril mudarem o cenário do Município. Em apenas três dias de precipitações, o reservatório da cidade saiu da condição de "volume morto" para situação na qual armazena 73% de sua capacidade.

Em Fortaleza, a quadra chuvosa tem mudado o espelho d'água nas lagoas situadas em diversos bairros. Em balanço referente a todo o ano, segundo a Funceme, elas acumulam 836,9 mm de precipitações. A captação hídrica nesses ambientes criaram condições ideais para a reprodução acelerada de peixes, atraindo até os pescadores antes desiludidos.

Para que a oferta hídrica seja proporcional à demanda, todavia, é necessário adotar medidas complementares que possam ir além da espera por condições climáticas favoráveis. Colocar um fim nas sucessivas interrupções sofridas pelas obras de transposição das águas do Rio São Francisco, projeto que se arrasta há anos, é uma das ações urgentes. A construção de adutoras, perfuração de poços e outras iniciativas semelhantes são todas medidas recomendáveis, embora não sejam suficientes para preservar o bem-estar da população em caso de novo período de chuvas escassas.

O mais recente revés, responsável por interromper o projeto de transposição, foi a substituição da construtora que tocava as obras do Eixo Norte. A empresa comunicou ser incapaz financeiramente de concluir os serviços previstos no contrato. O Ministério da Integração Nacional assegurou, entretanto, que a mudança não afetará o cronograma.

Investir em estrutura para conter os elevados indicadores de desperdício causado por vazamentos na rede e pensar modelos de gestão do reúso das águas residuais também são outras ações imprescindíveis. Por sua vez, os cidadãos têm a obrigação de cultivar hábitos condizentes com o contexto de escassez hídrica. Em 2017, a economia de água na Região Metropolitana de Fortaleza foi 133% maior em relação ao observado no ano anterior. Espera-se que, em 2018, aconteça igual desempenho.

As chuvas de abril trazem fôlego, mas ainda longe de atenderem às necessidades do consumo de uma população sempre crescente. O cuidado deve continuar.

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