editorial

Riscos às montadoras

00:00 · 15.05.2018

A produção nacional de veículos completou, em abril, 18 meses consecutivos de alta, incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. O setor, impulsionado pelas exportações e por mercado interno aquecido, tem se comportado como o principal sustentáculo da indústria em geral, cujos resultados modestos neste início de ano frustraram as expectativas mais otimistas. No mês passado, o número de unidades fabricadas foi 40,4% maior (266,1 mil) ante o total em igual período do último ano (189,5 mil).

No mercado interno, as vendas alcançaram o melhor desempenho desde dezembro de 2015. Em abril, foram licenciados 217,3 mil veículos, o que representa alta de 38,5% em relação a igual mês do ano passado. No acumulado de 2018, segundo balanço da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), divulgado recentemente, a soma chegou a 762,8 mil unidades licenciadas, o que significa 21,3% a mais em comparação com o primeiro quadrimestre de 2017. Já as exportações registraram crescimento de 36,8% no último mês, com receita de aproximadamente 1,68 bilhão de dólares.

A crise econômica na Argentina, no entanto, lança incógnita sobre a viabilidade de se repetir expansão durante os meses seguintes em face de o vizinho na América do Sul ser o principal importador dos produtos comercializados pela indústria automobilística nacional. Os argentinos concentram cerca de 70% das exportações brasileiras no setor.

Na última semana, o banco central na Argentina elevou a taxa de juros para 40%. É a terceira alta no ano realizada pelo governo na tentativa de frear a desvalorização do peso frente à alta do dólar. O país também recorreu ao FMI (Fundo Monetário Internacional) a fim de negociar um empréstimo com a entidade, pela primeira vez, após 15 anos. No começo dos anos 2000, no ápice da crise financeira enfrentada pela região, os argentinos solicitaram empréstimo, motivando diversos protestos realizados à época por segmentos da população.

Ainda é cedo para avaliar com clareza qual será o impacto desse contexto da crise argentina na indústria automobilística. Projeta-se ser necessário aguardar cerca de dois meses para ter noção melhor da proporção desse momento de turbulência. As montadoras brasileiras, no entanto, demonstram preocupação e, por tal razão, colocam como principal objetivo de 2018 diversificar os destinos de suas vendas externas.

O mercado tem mirado o Oriente Médio, região em que a indústria nacional de veículos, décadas atrás, fornecia regularmente número considerável de unidades. A Argentina passou a ganhar mais importância nas exportações brasileiras nesse setor, no decorrer deste ano, após o México passar a comprar menos do Brasil, devido às negociações para reformulação do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). Somente no quadrimestre, as vendas do segmento aos argentinos evoluíram 31%.

A lista de compradores precisa ser diversificada para que a indústria automobilística nacional consiga uma guinada no nível de emprego. Mesmo com as altas consecutivas no volume de unidades produzidas, o total de empregados nas fábricas, com 112,8 mil trabalhadores, não tem acompanhado o mesmo ritmo e corresponde apenas a 4,3% maior em comparação com o quadro de um ano atrás. A adoção de nova política para o setor, que tem sido protelada pelo governo federal, é igualmente importante para que essa indústria não fique refém de oscilações no mercado internacional.

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