editorial

Risco à competitividade

00:00 · 12.09.2017

A degeneração das contas públicas também se reflete no recuo dos investimentos em qualificação das estradas. Desde o recrudescimento da crise econômica, os recursos assegurados ao aperfeiçoamento da malha rodoviária são irrisórios em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Setores produtivos como o agronegócio, que dependem das rotas terrestres para escoar suas mercadorias, ressentem mais as consequências da precária manutenção do asfalto nas vias estaduais e federais.

Com as falhas estruturais presentes em diversas regiões do País, ampliam-se os custos de transporte para preservar a qualidade de alimentos e de outros frágeis e perecíveis itens habitualmente levados através de via terrestre. Nessa estratégia, a competitividade dos artigos comercializados é comprometida.

Menos da metade das rodovias federais (42,7%) pode ser avaliada como boa ou ótima. A constatação é do recente estudo da Confederação Nacional de Transporte (CNT), apresentado neste ano. Há 10 anos, a condição dessas estradas era ainda mais alarmante. À época, somente 14,2% estavam nessa faixa de avaliação. Apesar da evolução, no entanto, a estrutura segue longe do almejado. Em 2016, o governo federal desembolsou modestos R$ 8,6 bilhões em infraestrutura. O valor corresponde ao percentual ínfimo de 0,14% do PIB e representa o segundo menor patamar desde 2008.

O montante só é inferior às despesas contabilizadas em 2015, que somaram R$ 6 bilhões. Para compreender a magnitude da queda, vale frisar o total de R$ 15,73 bilhões pagos em 2011.

Outro agravante é a baixa durabilidade das rodovias. Com o objetivo de diminuir os custos das intervenções nas estradas, o pavimento é projetado, em média, para durar entre 8 e 12 anos. Dessa forma, obviamente, o trabalho de manutenção precisa ser mais recorrente.

E, embora os prejuízos provocados pela necessidade de executar as correções necessárias sejam mais caras, em comparação com o que é economizado no momento de revestir o solo com material qualificado, o método adotado nesse planejamento não tem mudado. De 2004 a 2016, o percentual de trechos desgastados nas vias de responsabilidade da gestão pública foi de 13% para 49%.

Nos Estados Unidos, a expectativa de duração do pavimento é de aproximadamente 25 anos. Conforme outro levantamento do Fórum Econômico Mundial para medir a qualidade das rodovias, o Brasil ocupa a vergonhosa 111ª colocação no ranking com 138 países.

Segundo a nova edição da pesquisa CNT, 2,2 mil quilômetros de rodovias no Ceará apresentam algum tipo de deficiência. O número equivale a 64,4% do total de 3,5 mil quilômetros de estradas de responsabilidade estadual ou federal. De acordo com o balanço, as deficiências no pavimento elevam em 27,8% o custo operacional do transporte em território cearense. O esforço do governo para combater tais carências é o lançamento do programa "Ceará de Ponta a Ponta".

A iniciativa, que teve o aporte de R$ 405,1 milhões no fim de julho, consiste num conjunto de ações de requalificação da malha viária. Até o próximo ano, a expectativa é que os investimentos somem aproximadamente R$ 2 bilhões e consigam contemplar todas as regiões.

Negligenciar os investimentos em estradas é penalizar o setor de transporte de carga que depende delas. É urgente implantar políticas públicas consistentes e de longo prazo. Além da escassez de recursos, o planejamento insuficiente é um dos culpados por deixar a infraestrutura brasileira aquém de outras nações.

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