Editorial

Reação da produtividade

00:00 · 25.04.2018

Mesmo antes da recessão, o País não conseguia apresentar melhoras no tocante à produtividade. Isso porque este indicador essencial para a evolução econômica sempre ficou à sombra de outras prioridades. Embora reiteradamente apontado em pesquisas nacionais e internacionais, o problema da baixa produtividade do Brasil foi continuamente mascarado por diferentes governos, os quais jamais tocaram no assunto com a peremptoriedade e a urgência de que ele necessita.

Essa omissão reflete em resultados que beiram o vexame. Apenas para citar levantamentos mais recentes, o Brasil aparece em penúltimo lugar no ranking de competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que contempla 18 países. Ficou à frente apenas da Argentina e ainda enfrenta o risco iminente de ser ultrapassado pela nação vizinha, pois, por lá, aspectos relevantes vêm em ascensão. Desde 2012, início da série histórica do estudo, o País se mantém nessa incômoda posição.

Outro diagnóstico, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, chega a conclusões semelhantes. A diferença é que este aborda uma quantidade bem maior de países (137). De acordo com ele, o Brasil é apenas o 80º lugar entre os avaliados. Já para o International Institute for Management Development (IMD), organização voltada para o desenvolvimento empresarial, o Brasil é o 61º colocado de 63 economias analisadas. A lista de renomadas instituições cujas pesquisas convergem ao verificar, com distintas metodologias, a severa deficiência produtiva nacional é longa. O motivo é simples: os gargalos aqui encontrados são escancarados, numerosos e crônicos.

Contudo, surge um discreto lampejo no fim do túnel. Após acumular queda de 6,45% nos últimos seis anos, a produtividade nacional traceja reação. Conforme projeção da Consultoria Tendências, estima-se crescimento de 0,5% no indicador neste ano. Para tudo que o País precisa galgar até atingir nível razoável perante o mercado internacional, é pouco. Mas, considerando-se a sequência negativa do passado recente, o tímido avanço é válido.

O fenômeno que se observa em 2018 é típico de pós-crise. Na recessão, milhares de empresas ineficientes e com processos ultrapassados acabaram cerrando as portas. Enquanto isso, outras investiram em métodos produtivos otimizados, reduziram custos e se aparelharam, a fim de sobreviver aos ventos turbulentos. Forçadamente, o momento de ruptura faz nascer uma mentalidade mais arguta e objetiva no mundo empresarial e no mercado de trabalho. Desse modo, o panorama geral da produtividade se eleva, mesmo que os fatores que fogem à alçada das empresas se mantenham como barreiras.

Para lograr evoluções mais robustas do que a prevista para este ano, é premente tocar e cauterizar em múltiplas feridas que estão expostas há tempos. A baixa taxa de investimentos, carga tributária nociva, excesso de regulação, logística deficitária e outros problemas flagrantes precisam receber ofensivas concretas das autoridades.

Trata-se de questões de enorme peso para o desenvolvimento, às quais, por conveniência, não se dá a justa atenção. São entraves gigantescos, que precisam de reformas contundentes e de longo tempo para serem dirimidos. A dificuldade de parte significativa da classe política em pensar e agir de olho em horizontes mais distantes reproduz tais problemas de geração a geração.

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