editorial

Reação às incertezas

00:00 · 18.05.2018

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, em manter a taxa básica de juros em 6,5% ao ano surpreendeu o mercado financeiro e interrompeu o ciclo de 12 quedas consecutivas. Desde outubro de 2016, numa estratégia para estimular a economia, que foi possível devido à acomodação dos indicadores inflacionários, a Selic foi alvo de cortes seguidos, passando de 14,25% para o patamar atual, que permanece no nível mais baixo registrado na história.

Em face da volatilidade do ambiente no exterior simbolizada pela alta do dólar, decorrente sobretudo do aumento dos juros nos Estados Unidos, além da escalada no preço dos barris de petróleo, o Copom preferiu adotar posição de cautela. A medida contrariou a expectativa da maioria dos especialistas, que aguardavam novo corte de 0,25%.

No entanto, em comunicado divulgado ao mercado financeiro, o Banco Central entendeu que tal redução não seria apropriada. Foi esclarecido que, para a decisão de manter a taxa, foi levada em consideração principalmente a ameaça de a instabilidade no cenário internacional afetar o Brasil, que pode deixar de receber volumes significativos de investimentos. Enquanto os juros nos Estados Unidos persistirem em trajetória ascendente, potenciais investidores continuarão sem apetite para assumir os riscos de empregar esforços e dinheiro em economias emergentes.

Se a autoridade monetária brasileira tivesse anunciado novo corte, iria se estreitar ainda mais a diferença entre os juros locais em relação aos dos Estados Unidos. E tal situação agravaria a posição de ampla desvantagem do Brasil na hora de atrair investidores, pois a maioria, quando se deparasse com taxas de juros semelhantes, optaria pela alternativa norte-americana, em que há maior segurança de retorno.

No quesito inflação, as perspectivas ainda são favoráveis, pois elas giram em torno de 3,6% para 2018 e de 3,9% para 2019. Numa realidade com alto desemprego e exagerada ociosidade produtiva, diversos setores custam a acreditar em mudança repentina desse quadro. Por outro lado, a taxa básica de juros não pode ser definida de forma automática, apenas com base nessas projeções.

Deve-se também ponderar outros elementos e analisar todas as variáveis que podem elevar novamente os indicadores inflacionários no futuro. Dentre esses fatores, além da pressão provocada pelas oscilações do câmbio, existem as consequências da campanha eleitoral, a qual está tomando impulso neste ano.

Outro componente complicador é a incerteza sobre como as reformas e os ajustes necessários para a economia irão avançar após a eleição presidencial.

Apesar das sucessivas quedas da Selic, porém, a atividade econômica reagiu timidamente e não decolou conforme era esperado. No primeiro trimestre deste ano, ela chegou a recuar 0,13%, frustrando as projeções otimistas que foram disseminadas após o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), no ano passado. Esse arrefecimento, todavia, não pode justificar mudanças na estratégia de estimular a economia.

A manutenção da taxa básica em patamar baixo deve prosseguir pelos próximos meses. O fato permite que o Brasil deixe de figurar nos rankings que o colocavam na incômoda posição entre os campeões mundiais de juro alto. Mais importante é que tornará economicamente possível a execução de alguns projetos relevantes para o desenvolvimento nacional, que não teriam condições de sair do papel com juros onerosos.

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