Editorial

Proteger a Caatinga

00:00 · 28.06.2018

Apesar de a Caatinga cobrir 88% da vegetação do Ceará e estar presente em aproximadamente 10% do território nacional, ela jamais atraiu projetos consistentes destinados a assegurar sua preservação. Nem mesmo foi deferido o reconhecimento oficial do bioma como patrimônio brasileiro, embora a luta para conquistá-lo já tenha atravessado mais de duas décadas, simbolizada por diferentes tentativas de levar adiante no Congresso Nacional a aprovação de proposta de emenda à Constituição concedendo-lhe essa condição privilegiada.

Essa distinção está atribuída à Floresta Amazônica, à Mata Atlântica, à Serra do Mar, ao Pantanal mato-grossense e à Zona Costeira, com o objetivo de disciplinar o uso de seus recursos naturais e de proteger o seu meio ambiente. Todavia, a Caatinga, assim como toda a região do semiárido, permanece alvo de preconceitos e carente de investimentos, incidindo sobre a população sertaneja os piores efeitos dessa discriminação histórica.

Estima-se que a Caatinga perdeu 46% de sua cobertura original. Pesquisadores consideram, no entanto, que o indicador deve ser atualizado em breve e apontar para um quadro ainda mais degradante em face do processo acelerado de deterioração devido à disseminação de métodos ultrapassados de agricultura e pecuária. O desmatamento para pasto e a queima de lenha para uso energético, por exemplo, são práticas que ainda se repetem habitualmente em diferentes áreas do sertão cearense e nordestino.

A criação extensiva de caprinos é outra ação extremamente perniciosa à biodiversidade do bioma, mas que é adotada de forma recorrente. Essa prática tem custo menor e consiste em deixar os animais soltos em grandes latifúndios ou em pequenas áreas familiares.

O problema da liberdade é que, dessa forma, o rebanho, naturalmente, deixa rastro de destruição da vegetação. A solução alternativa é mais cara, porém alinha-se melhor à necessidade de preservação. Ele funciona por meio do confinamento dos caprinos, com a utilização de avançados procedimentos tecnológicos para torná-los mais produtivos.

Urge elaborar plano para permitir que os pequenos agricultores passem a ter acesso a técnicas modernas. As estratégias para executar o planejamento precisam ser bem estudadas, pois elas terão de atingir uma quantidade expressiva de pessoas. Dos 29,6 milhões de habitantes que residem dentro dos limites da Caatinga, existem cerca de 9,5 milhões que dependem, para sobreviver, de práticas arcaicas de extrativismo e da agricultura de subsistência exaustiva ou predatória. A maioria não conta com recursos para custear procedimentos que proporcionem ao bioma maior segurança.

Conter a desertificação e fazer a região da Caatinga resistir aos longos ciclos de estiagem também requer iniciativas para o reflorestamento com espécies nativas. A partir de tal providência, com a nova vegetação, o solo ressequido conseguirá reter volume maior de líquido e, assim, recarregar os aquíferos.

A sociedade precisa compreender a vasta gama de riquezas oferecidas pelo bioma, um pressuposto importante para estimular sua preservação. A árvore nativa conhecida como umbuzeiro é capaz de fornecer matéria-prima para a produção de fármacos, farinhas para massas, geleia e vários outros produtos.

Em geral, contudo, ignoram-se esse e diversos benefícios proporcionados pela fauna e flora da Caatinga. Enquanto imperar o desconhecimento, haverá dificuldade em fazer a população se engajar na defesa desse patrimônio nacional.

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