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Professor Emérito

00:00 · 15.09.2018

O grau de Professor Emérito na Universidade Federal do Ceará foi concebido em 1975, e há muito incorporado às suas mercês, como sua insígnia mais relevante. Destina-se a galardoar os que sobressaíram, com comprovada produção científica acadêmica, aliada ao seu desempenho laborativo docente e assistencial. Traduz o reconhecimento oficial do seu trabalho em prol da Educação, esta uma necessidade perene dos povos, em todos os tempos.

Perlustrando as 52 universidades mais antigas do mundo, vale mencionar as do Marrocos (ano 859), do Egito (Cairo, 988), de Oxford (Inglaterra, 1096), Paris (1170), Cambridge (1209), Montpellier (França, 1220), Coimbra (Portugal, 1537), e Heidelberg (Alemanha, 1836). Após 1500, surgiram as de San Marcos (Peru, 1551), Harvard (EUA, 1636), e Cartagena (Colômbia, 1824). Três outras viriam a seguir na Bolívia, sendo mais conhecidas em La Paz (1831), e Cochabamba (1832). Segundo o "University Institute of Higher Education", os dados acerca de publicações científicas, divulgados em 2014, considerando 100 universidades no planeta, situam 47 destas na América do Norte.

No Brasil, a primeira foi inaugurada no Paraná, em 1912, ou teria sido aquela do Amazonas, em 1909. Em todos estes templos do saber, o professor há de ser qual pregador, a semear conhecimento. Aliás, ao plantá-lo, mais sábio e experiente resulta o educador, pois colhe dos alunos ideias ainda verdes, virgens, regadas apenas pelas verdades que trouxeram ao nascer.

O professor seria qual timoneiro, ensinando a conduzir um jovem barco, aquele "bateau ivre", de Raimbaut, varando procelas - dores e sofrimento humanos - arrostando com os arrecifes da vida, ensinando o aluno a bem haver-se profissionalmente, tal qual adestrasse o cadete para terçar armas nas guerras e garras da existência. E cumpre-lhe outrossim organizar o saber ministrado, do qual brotará a ciência.

Como preconizava Seneca: "Homines dum docent discunt": "Enquanto ensinam, aprendem". Não nos assiste erudição suficiente para uma análise profunda do binômio ensino/aprendizagem. Para tanto, possuíam e o fizeram, à farta, os supernos mestres Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Francis Bacon, Adam Smith, Hegel, William James, Montaigne.

Contudo, cumpre-nos discretear sobre a real contribuição do professor. Sócrates, na sua maiêutica, assemelhava o docente a uma parteira, conduzindo o trabalho de parto, trazendo à luz o saber.

São Tomás de Aquino comparou a arte de ensinar à cicatrização, ambas manifestações cooperantes, atuando apenas como agentes da natureza, esta a principal atriz. Hipócrates cotejou o ensino da Medicina à Agricultura, quando, na estação adequada, plantam-se sementes na mente dos docentes.

Por igual, o estudo das doenças pela óptica da História comprova que a leitura de ficção, de poesia, das biografias muito contribue para a sua compreensão.

Assim encarada, avulta a íntima relação entre Medicina e Literatura, como sempre salientamos, estribados em Homero, Tolstoi, Shakespeare, Dante, Cervantes, Chaucer, Henry Fielding e tantos outros. Acreditamos até não requerer apenas escolas o ensino da Medicina, pois esta aprende-se maiormente nos hospitais. São nestes que o professor ensina a tratar a vida, esta doença incurável.

Como prelecionava Miguel Couto, ali aprende-se a curar algumas vezes, aliviar com frequência, cumprindo a obrigação de confortar sempre. Realmente, é nas enfermarias e nas UTIs que aos discípulos revela-se a maneira de cuidar também da morte, esta constante certeza na vida. Urge assim, abeberar-se na recente disciplina importantíssima da Tanatologia, absorvendo e lecionando seus recursos para morrermos melhor.

Pedro Henrique Saraiva Leão
Médico e Professor Emérito

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