editorial

Prevenir turbulências

00:00 · 10.02.2018

Ao fechar em queda de 4,6% no último dia 5 de fevereiro, a Bolsa de Valores de Nova York, nos Estados Unidos, sofreu a pior retração em mais de seis anos, afetou o mercado acionário numa escala global e deixou várias lições importantes aos países que se ancoram no bom ambiente econômico mundial para viabilizar seu crescimento. Para o Brasil, a turbulência nascida em território norte-americano deve ser observada como alerta de que o panorama positivo da economia internacional tem prazo para acabar e, quando isso ocorrer, serão ínfimas as chances de implementação de reformas voltadas a garantir maior estabilidade fiscal.

A reação desmedida do mercado de ações nos Estados Unidos começou após o Departamento de Trabalho local anunciar que o aumento dos salários dos trabalhadores foi mais robusto do que era previsto. Na avaliação dos investidores, tal informação foi recebida como o prenúncio de que o consumo deve aquecer, o que estimulará o aumento dos preços e, consequentemente, levará o governo do presidente Donald Trump a rever a política monetária, elevando os juros. A partir dessa linha de raciocínio, o mercado passou a temer que, com os juros mais altos, além dos custos de empréstimos seguirem a mesma trajetória de elevação, apostar em ações venha a ser bem menos atraente futuramente.

Dessa forma, iniciou-se uma corrida frenética entre os investidores, que se movimentaram rapidamente para vender esses ativos mesmo sem haver demanda de compradores.

Especialistas no mercado financeiro ponderam também outras variáveis que explicam tal reação. De acordo com vários analistas, uma delas é a política protecionista defendida por Donald Trump a fim de favorecer a produção norte-americana e minar a concorrência estrangeira. Tal estratégia de governo é observada com maus olhos por parte dos investidores, que se sentem inseguros quanto aos efeitos desse modelo adotado.

Outra avaliação indica desconfiança quanto à saúde financeira dos Estados Unidos. O gabinete orçamentário do Congresso norte-americano estima que, em 10 anos, o rombo nas contas públicas deve aumentar em 1,7 bilhão de dólares.

O cálculo é baseado no impacto da Reforma Tributária aprovada recentemente. Atualmente, o déficit é medido em torno de US$ 1 trilhão.

Embora as projeções prevejam prosseguimento da instabilidade nos próximos meses e o início de época de dificuldades não apenas para o mercado americano, mas também europeu e asiático, é improvável que se repita o colapso semelhante ao que ocorreu em 2008.

O valor das ações na Bolsa de Valores de Nova York caiu para patamar registrado em dezembro do ano passado e ainda permanece em nível historicamente alto. No Brasil, o Ministério da Fazenda avalia que a volatilidade internacional não trouxe, pelo menos até agora, abalo expressivo na economia nacional.

Se as turbulências continuarem, no entanto, o ímpeto dos investidores irá se arrefecer, trazendo prejuízos enormes aos países que apresentem condição fiscal vexatória. Com o cenário de crescimento, tal situação pouco importa, devido à margem disponível para assumir riscos. Aproveitar o momento em que ainda se colhem os benefícios do bom humor global, para levar adiante reformas que reestruturem as contas públicas e garantam o salto na economia brasileira, é crucial. Somente assim o País passará a dispor de maior segurança para impedir a fuga de recursos em eventuais períodos de intranquilidade.

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