Editorial

Poluição contínua

00:00 · 26.05.2018

Novo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as doenças e mortes causadas pela poluição atmosférica provoca aflição quando aponta números semelhantes aos que foram apresentados em levantamentos anteriores. Mesmo com o conhecimento difundido acerca de como a queda na qualidade do ar repercute na saúde e causa transformações climáticas inesperadas, são poucas as ações para melhorar os indicadores.

Hábitos ameaçadores ao meio ambiente perduram, bem como continua a resistência de algumas nações em adotarem medidas eficazes para reduzir a emissão de poluentes. Nove em cada dez pessoas no mundo vivem em lugares em que respiram poluentes, segundo a OMS, e a poluição do ar mata aproximadamente 7 milhões de indivíduos por ano.

No Brasil, conforme os dados mais recentes da entidade, cerca de 64 mil mortes foram registradas em 2016. Na maioria dos casos, as vítimas desenvolvem doenças respiratórias e cardiovasculares após inalarem finas partículas nocivas que chegam a entrar na corrente sanguínea. Pela primeira vez, a análise da OMS traz retratos regionalizados e, a partir deles, explicita as desigualdades globais ao confirmar cenário de que a população pobre é mais suscetível aos danos causados pela alta concentração de substâncias nocivas no ar.

Mais de 90% dos óbitos acontecem em países de média e baixa rendas, sobretudo na Ásia e na África, atingindo principalmente crianças e mulheres. Em contrapartida, nos Estados Unidos e no Canadá, nações no primeiro escalão de desenvolvimento, 80% dos habitantes respiram o ar que atende às diretrizes recomendadas pela OMS.

A partir desse relatório, portanto, depreende-se que, enquanto tecnologias limpas começam a se expandir nos países ricos, há regiões em que a lenha e o carvão, principais fontes de poluição no ambiente doméstico, ainda são utilizados para o cozimento de alimentos.

Assinado em 2015 por representantes de 195 países, durante cúpula da ONU (Organização das Nações Unidas), o Acordo de Paris representa o esforço de maior magnitude para reduzir as aceleradas mudanças climáticas no Planeta. A decisão dos Estados Unidos de abandonar o projeto, porém, colocou dúvidas sobre o futuro do documento, pois a saída dos norte-americanos enfraquece o cumprimento das metas estabelecidas para cada nação e desenha um horizonte preocupante. O presidente francês Emmanuel Macron fez um apelo para o retorno dos EUA, mas ainda não houve nenhum sinal de aceitação por parte do presidente Donald Trump.

Ante a indiferença dos Estados Unidos em relação à escalada da poluição atmosférica, cresce a responsabilidade de outros agentes em frearem as mortes decorrentes da qualidade do ar e proporcionarem a todos ambiente saudável. No Brasil, há iniciativas que podem ser executadas desde a competência municipal até ações de responsabilidade da União.

No âmbito local, prefeituras podem desempenhar papel basilar ao incentivar a população a utilizar transportes eco-amigáveis. Já na esfera do governo federal, há como propor modelos de estímulo à indústria para que elas incorporem soluções menos danosas ao meio ambiente, como a substituição por fontes de energia sustentáveis.

Os projetos plausíveis para colocar em execução são múltiplos. Falta as autoridades despertarem para a dimensão dos efeitos negativos de séculos com práticas desastrosas contra a natureza e agilizarem a mudança de comportamento.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.