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Poética de Belchior

00:00 · 13.01.2018

É incrível a perfeição linguística e poética que se vê nas músicas do grande Belchior. "Galos, noites e quintais" é um exemplo claro disso. A alegria estará sempre presente em um rio, até o dia em que o homem destrua totalmente essa riqueza.

Ou, a felicidade será sempre notada num "bando de pardais" ou num "galo, quando havia galos, noites e quintais". Até o dia em que tudo esteja desarvorado ou o simples cotidiano desapareça.

A poética, na forma metafórica, é retratada nos textos belchiorianos de um modo simples, mas cheio de elegância estilística. E aí "veio o tempo negro e, à força", em que o autor emprega com percuciência a crase. O termo "força" está precedido do acento indicador da crase porque há ali a junção do "a" artigo com o "a" preposição, esta última comandada pela expressão "veio o tempo negro".

Novamente, numa aula de sensibilidade, o poeta associa força como algo fazedor de mal, ao afirmar que o tempo negro "fez comigo o mal que a força sempre faz".

De fato, em regra, pela força nunca haverá mérito. Em seguida, no tom de comparação figurativa, sacramenta Belchior dizendo não ser feliz, "mas não sou mudo, hoje eu canto muito mais".

A música indica, numa época (1977) talvez tão sombria como a de hoje, um cenário de que nos aproximamos, em que se tem uma ausência de felicidade e, ao mesmo tempo, uma necessidade de se gritar, ainda que pela música ou pela arte.

Navy Adhe. Dicionarista e filólogo

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