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Petrus, diliges me?

00:00 · 16.06.2018

Quem vai à Terra Santa, vê a Igreja do Primado. Tabgha, monte que no seu cume se desenha uma capela e um rústico anfiteatro. Nesse local, há uma mesa redonda de pedra com a inscrição: Mensa Christi. (Mesa de Cristo). Foi neste píncaro sagrado, contemplando o mar da Galileia, que Jesus quis ouvir a sublime declaração de amor de Pedro. Petrus, diligis me? Pedro tu me amas? O amor é tão imensurável que, no texto sagrado, ele é expresso de maneiras diversificadas. Jesus não falou em latim, mas em aramaico. Nesta áurea de Teologia, descemos morro, abaixo, para nos afogar no mar que é o outro Pedro. Para singrar neste mar de talentos, de cultura e de amizade. Afogamo-nos na alegria de abraçar nosso Pedro Henrique Saraiva Leão.

Batismo significa mergulho. Não necessariamente com água. Chega ao batistério, onde se mergulha na grandeza de uma vida luminosa. Formosura poética. Chegada virtuosa nos pórticos das letras. Onde se caminha para as cephas miraculosas hipocráticas. Pode ser pedra, mas pode ser abrigo. Pedro agasalha cultura, harmoniza Medicina com o poema. Neste lago, Pedro pesca vidas preciosas. Erode neoplasia e o breu da morte. Conheci Pedro ainda aluno da faculdade. Sério. As vezes sisudo. Andar ritmado. Passo miúdo. Muitas vezes cabisbaixo, parecia catar estrelas perdidas no chão. De um concretismo lírico. E romântico, como se pudesse misturar tantos diferentes. Mais tarde fui encontrá-lo no HGF. Depois na Casa de Saúde S. Raimundo. Na Sobrames, nos corredores da poesia. Sou grato quando me orientou nos meus 'papers'. Rigoroso no falar e exigente no escrever. Cientificamente honesto nos seus ensinamentos. Objetivo. Simples sem vulgaridade. Juntos dividíamos o mesmo consultório. Com Paulo Marcelo, Sergio Gomes de Matos, Eduilton Girão, Martinho Fernandes. Estivemos juntos no Centro Médico Cearense, na sua fase apolítica partidária. Ao chegar no topo, Pedro pode contemplar com temperança o caminho que ele tracejou com admirável sabedoria. Por certo, verá escarpas, vieis dolorosos, mas o que vale é o que fica. Ao chegar aos 80 anos, Pedro pode contemplar os céus de seu fazer médico, cravejado de estrelas preciosas. Pode visitar os templos onde as vidas brotaram. Onde construiu promessas e esperanças. Onde cerziu tecidos e sistemas. Pode visitar os passos dos seus versos divinos. Dos seus poemas benditos. Pode dizer como Neruda: "confesso que vivi."

JOSÉ MARIA BONFIM DE MORAIS
Médico cardiologista

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