editorial

Peso da energia limpa

00:00 · 28.08.2017

O principal argumento para justificar a resistência ao investimento em energias limpas é o alto custo em relação às demais no mercado. Mas um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, contesta tal raciocínio, ao expressar em números que a substituição da queima de combustíveis fósseis por alternativas não poluentes, apesar de demandar volume maior de dinheiro, resulta num impacto em longo prazo que compensa o montante gasto inicialmente. Quando se priorizam as fontes eólica e solar na geração energética, além de assegurar economia nos gastos de saúde pública, são poupados recursos que, no futuro próximo, teriam de ser realocados para viabilizar projetos ambientais paliativos.

Ainda que os pesquisadores façam a ressalva de que os benefícios podem variar conforme a realidade de cada região, vale ressaltar que o levantamento, depois de oito anos, chegou à conclusão de que os Estados Unidos conseguiram poupar US$ 87 bilhões com a redução na emissão de materiais nocivos, como dióxido sulfúrico (SO2), óxidos de nitrogênio (NOx), partículas poluentes (PM2.5) e gás carbônico (CO2). O valor se aproxima do total pago em subsídios pelo governo norte-americano à indústria de produção de energia limpa e se apresenta como contraponto ao discurso do presidente Donald Trump. Entre 2010 e 2013, os incentivos variaram até US$ 13,2 bilhões por ano.

Para retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, o mandatário da Casa Branca alegou que a economia seria prejudicada se assumissem os compromissos definidos no tratado. Afirmou ainda que a luta contra o aquecimento global estaria estimulando as indústrias a se instalarem em regiões onde a preocupação com emissão de gases estufa está em segundo plano. Em contraponto, o estudo da universidade norte-americana constatou que, no período analisado, houve queda no número de mortes prematuras causadas pela poluição atmosférica.

No Brasil, a relutância em investir nas fontes de energia limpa não tem a mesma intensidade, e o Ceará exerce papel estratégico no fortalecimento de uma matriz energética alinhada ao contexto de preservação do meio ambiente. O território cearense deve alcançar, nos próximos quatro anos, o patamar de 2,6 gigawatts (GW) de capacidade instalada para gerar energia eólica, o que o alçará à terceira posição entre os maiores produtores, ficando atrás apenas da Bahia e Rio Grande do Norte. No presente, aparece na quarta colocação, pois perde também para Rio Grande do Sul.

Conforme a projeção do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), o crescimento deve ocorrer devido ao incremento aguardado de 0,9 gigawatts até 2021. A estimativa leva em consideração o prazo para que sejam concluídos os parques em construção, assim como também se baseia na expectativa de que os projetos contratados nos últimos leilões entrem em operação nesse período. Atualmente, há 59 empreendimentos em operação. Em 2021, deverão ser 105 unidades, com capacidade instalada de 2.602,86 megawatts (mw).

No momento em que, nas mais diversas instâncias, debatem-se medidas variadas para amenizar as consequências de longos séculos de exploração desenfreada, ir na direção oposta às alternativas apresentadas significa contribuir para que gerações futuras sejam obrigadas a conviver num Planeta em que os recursos naturais estão comprometidos. Pensar com imediatismo é ignorar o que a história ensina sobre a relação imprópria com o meio ambiente.

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