EDITORIAL

Perfil do desemprego

00:00 · 29.06.2018

Milhões de brasileiros continuam acometidos pelo desemprego, problema que impõe barreiras íngremes ao crescimento econômico e ao bem-estar social. Dentro do avolumado contingente desocupado, destacam-se perfis mais propensos à marginalização empregatícia, em um ressaltado ambiente de desigualdade por diferentes motivos.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) analisou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, e apurou que, entre as mulheres economicamente ativas, o desemprego é mais frequente do que entre os homens. No primeiro trimestre deste ano, a taxa da população feminina foi de 15%, enquanto a do público masculino assinalou 11,6%.

A disparidade de gênero no mercado de trabalho, questão de longa data, ainda parece distante de ser banida da realidade brasileira. Cresce o ímpeto ativista das mulheres em busca da correção para tais incongruências, e essa atuação se faz importante para semear a conscientização acerca da necessidade de paridade salarial e de oportunidades de trabalho.

O gênero não é o único fator de contraste percebido no estudo do Ipea. Os aspectos regionais também incutem discrepâncias notórias. De acordo com o levantamento, a taxa de desemprego no Nordeste é a maior do País: 15,9%. No Sudeste, a taxa é de 13,8% e, no Sul, 8,4%. Ao longo dos últimos dois anos, a situação era a mesma, o Nordeste sempre à frente no ranking da desocupação.

O elevado desemprego nos estados nordestinos é uma ameaça social grave. Tais unidades da Federação carregam o fardo histórico da evolução econômica tímida e do desenvolvimento industrial lento. A tendência, com a desocupação maior do que a registrada nas demais macrorregiões, é de ampliar a fissura socioeconômica que separa o Nordeste das áreas privilegiadas, tornando a população nordestina mais vulnerável às tormentas que possam vir a afligir o País.

Mesmo com a cristalina problemática, o governo federal se esconde sob o véu da conveniência. Não existem ações sólidas - nem o vislumbre de que elas possam ocorrer - no sentido de o Executivo tentar compensar os desequilíbrios. Ficam as administrações estaduais com toda a responsabilidade de estimular o crescimento, uma missão árdua.

O terceiro ponto de atenção revelado pelo Ipea diz respeito à faixa etária. A taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos avançou nas últimas três comparações trimestrais, atingindo 28,1% de janeiro a março de 2018. É um dos piores percentuais dos últimos anos. Entre os brasileiros de 25 a 39 anos, 11,9% estão sem emprego; de 40 a 59 anos, a taxa é menor: 7,8%; e, para os que possuem acima de 60,4, é de 6%.

É possível aferir, portanto, que o desemprego, embora configure mazela com efeitos generalizados pelo País, afeta de maneira mais constante determinadas parcelas da população. Mulheres, nordestinos e jovens fazem parte desse tecido fragilizado.

Espera-se que as autoridades e as lideranças empresariais se esforcem, dentro de suas possibilidades, para criar um mercado de trabalho igualitário, harmonioso e condizente com as demandas produtivas modernas. Quanto à incompatibilidade social entre as regiões, cabem políticas públicas de incentivo especial a investimentos capazes de dinamizarem as economias menos favorecidas.

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