EDITORIAL

Paradoxo social

02:10 · 26.06.2011
 Embora a América Latina tenha atravessado, nas duas últimas décadas, um sensível ciclo de expansão econômica, sobretudo gerado pela demanda global por suas exportações, ainda são estarrecedores os dados sobre o imenso contingente humano dentro da definição de pobreza estabelecida pela Cepal - Comissão Econômica para os Países da América Latina e o Caribe, entre os quais se inclui o Brasil. Segundo estimativas dessa instituição, em torno de 100 milhões de pessoas não têm dinheiro sequer para adquirir uma cesta básica, situando-se, desse modo, abaixo da linha de indigência.

Essa lamentável evidência assume indiscutível relevo exatamente quando o governo brasileiro lança programa para a erradicação da miséria, visto com certo ceticismo por alguns pelo aspecto clientelista, mas, de modo geral, bem recebido por importantes segmentos da sociedade.

Estudiosos apontam como uma das principais causas da disparidade social em países como o Brasil, onde existe sensível e desproporcional concentração de renda, ao acelerado crescimento demográfico decorrente da migração do campo para as cidades, que ocorreu mais cedo nos países com maior grau de desenvolvimento. Onde o processo de industrialização começou mais tardiamente, a migração alcançou maiores índices e se processou em ritmo bem mais intenso.

O Brasil é sempre citado como um país de urbanização tardia e acelerada. Tal tipo de aceleração, geralmente ocorrida em regiões pobres, sempre resulta no chamado inchaço demográfico e na ocupação desordenada e caótica das áreas urbanas. Fortaleza é um dos exemplos brasileiros mais óbvios e contundentes dessa problemática, saltando de 280.000 habitantes, no Censo de 1950, para os atuais 2,4 milhões, agregados a uma Região Metropolitana densamente povoada por municípios interligados que já somam quase 3,5 milhões de pessoas.

Além dos problemas sociais, urbanísticos e das carências estruturais elementares, o crescimento sem ordem ocasiona aumento avassalador dos índices de criminalidade, que abrangem desde assaltos, sequestros e formação de gangues à facilidade de expansão do narcotráfico. As favelas periféricas estão se transformando, pela dimensão espacial e populacional, em verdadeiras cidades dentro das cidades, mas igualmente com seus próprios códigos e normas cada vez mais acintosos e altamente agressivos ao conceito de comunidade pacífica.

Em Fortaleza, dentro de uma área urbana que se convencionou chamar de "Território da Paz", numa tentativa de conscientizar seus moradores quanto ao aumento número de crimes e transgressões à lei nela cometidos, é exatamente onde continuam a ser registrados os mais alarmantes níveis de criminalidade. Apesar de seus propósitos, essa denominação ainda é uma utopia.

Como marginalidade e miséria são conceitos lamentavelmente associados, está mais do que em tempo de se enfrentar esses perniciosos universos paralelos dentro do quadro das grandes metrópoles. Os cidadãos esperam que circunstanciais empecilhos não venham a sobrepor-se, ou contribuir para protelar, por momentâneas injunções ou crises políticas, a solução dos básicos problemas sociais do País.

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