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Os clarins da Avenida Dom Manuel

00:00 · 07.10.2017

No passado, a Avenida Dom Manuel com notáveis personalidades paradigmas da vida política, intelectual e empresarial do Estado. Walter Sá Cavalcante, Joaquim Bastos Gonçalves e Franklin Chaves eram cardeais do Partido Social Democrático, que se digladiavam sempre com a União Democrática Nacional. Parecíamos um primeiro mundo, com apenas dois grandes partidos políticos. Vilebaldo Aguiar, udenista convicto e brigadeirista.

Paes de Andrade e Castelo de Castro, símbolos da pertinência ideológica. A grande vocação daquele segmento da cidade era para a Educação, como uma vertente cultural, com educadores que dignificaram várias gerações. O Colégio Castelo Branco, o Seminário da Prainha, o Grupo Clóvis Beviláqua e o Consulado da Holanda, pelos méritos, fechavam o ciclo das instituições que se consagraram.

Os professores pe. Jonas Barros, Ari de Sá Cavalcante, Joaquim Alves, Mozart Solon e Margarida de Castro Almeida, formavam um elenco de docentes, que ensinavam como quem reza com a alma genuflexa, parafraseando Filgueiras Lima, Fred Solon, reitor da Universidade Católica de Pernambuco, e Perípedes Chaves, ex-reitor da Universidade Estadual do Ceará.

Pela Avenida também tiveram suas origens Alfredo Marques, Firmo de Castro, Antônio Azim e Temístocles de Castro e Silva. Nas Artes Plásticas, expoentes Flávio Phebo, que partiu para um universo maior, e Hermínio Castelo Branco, nome nacional, o nosso estimado Mino.

Os desfiles do Colégio Militar e a Escola de Cadetes engrandeciam a população. As empresas e o comércio tinham extraordinária relevância, com Genésio Queiroz, Plínio Câmara, Genipo Fernandes, Vicente e Expedito Borges, José de Menezes Pires. E Zequinha Napoleão, João Ellery, Oswaldo Azin, Luiz Souza, e Josué Viana de Castro, com armazém na Costa Barros, com vinhos do Rio Grande do Sul e aguardente de Acarape e Redenção.

Na área financeira, Deusdeth Costa Sousa (Banco dos Proprietários) e Francisco de Assis Barbosa, empresários Júlio Rodrigues, do Banco de Crédito, João Caminha, da Indústria de Cigarros Araken e Wilson Araújo, das Lojas Esquisita, precursores do progresso. Alci Leitão, padre Jorgelito Cals, Padre Francisco José Ramos e Fernando Câmara, do setor da Cultura e Educação, que tinha como cerne Ari de Sá Cavalcante, do Colégio Farias Brito. Importante complexo educacional dirigido filhos Otho e Thales.

Maiores destaques para Dom Jerônimo e Hermenegildo de Sá Cavalcante, eterno Cônsul do Ceará no Rio de Janeiro. Entre colegas, Bolivar Bastos Gonçalves, Wander Biasoli, Castro Meireles, Mozart Ibiapina, Cleson Aquino, César Gondim, George de Castro e outros abnegados.

Existiam grupos de distintas senhoritas Vanda, Cléia, Jacy e Ivone, filhas de Cordélia e Genésio Queiroz, consideradas jovens elegantes e exemplares. Irmãs de Edson, o maior empresário do Estado, em todos os tempos, cujo pensamento indelével e espírito profícuo transcenderam o infinito. Havia ainda a Escola de Música de Carmem Carvalhedo, onde as musas da Orquestra Feminina do Ideal passeavam nas tardes primaveris seus encantamentos. E os Clarins? Ficavam por conta de Luisão I e Único, rei dos gloriosos carnavais de uma época dourada e inolvidável da Avenida Dom Manuel.

Ao raiarem as madrugadas, ecoavam os formidáveis clarins da corte do grande Luisão, acordando os mais jovens, que se tornavam perplexos diante da magnitude do evento. Quanto riso. Quanta alegria. Carnaval. Saudades...

Agora os tempos são outros. Dizem que até melhores. Como aquela sublime comunidade, outras virão certamente, mas sem a saudade das enternecedoras noites de Natal que os sonhos não trazem jamais, segundo o poeta.

Nosso espírito vai se esvaindo inexoravelmente neste mundo imponderável de violentas guerrilhas sociais e urbanas com crianças assassinadas em tenra idade escolar.

Quanta perplexidade. A Família Avenida Dom Manuel dignificou seus filhos projetando-os para o êxito profissional, constituindo excelentes cidadãos para a eternidade do País. Com as missas nas Igrejas do Cristo Rei, Prainha e Pequeno Grande, com procissões e novenas rezadas nas próprias residências, com nossa avó Mãe Etelvina.

Josué de Castro. Médico, professor e escritor

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