editorial

O xadrez dos juros

00:00 · 27.06.2018

Com a atmosfera financeira cingida de variáveis turbulentas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu pela manutenção da taxa básica de juros em 6,5%. Embora o órgão admita a futura possibilidade de voltar a içar a Selic, considerou que este ainda não é o momento para tal, o que acabou fornecendo uma pequena dose de tranquilidade ao mercado, em meio à grande tensão que tem prevalecido nos últimos meses.

Essa deliberação do Copom, provavelmente, foi a mais difícil das recentes reuniões, em razão da pressão que o cenário acintoso impõe. O dólar passou a surfar ondas cada vez mais altas; a greve dos caminhoneiros originou abalos sísmicos na relação entre oferta e procura de diversos artigos; o peso da imprevisibilidade da eleição presidencial se tornou maior; e a economia dá contínuos sinais de vacilação.

Em meio a tais questões desafiadoras, a autoridade monetária se vê diante de um tabuleiro insidioso. Manter os juros pode abastecer a inflação; e aumentá-los pode desestimular a economia. Entre essas duas opções indigestas, o Copom preferiu evitar a segunda, medida que, por ora, soa razoável.

É fato que o comportamento dos preços apresentou efetiva mudança desde que o movimento grevista estancou o transporte de mercadorias pelas rodovias do País. O IPCA-15 de junho, prévia do índice oficial, já materializou em números os efeitos práticos da paralisação, com a alta de 1,11%, a maior para o mês em mais de 20 anos.

Conforme comunicado do Comitê, estima-se que a inflação, ao fim de 2018, seja de 4,2%. Em maio, a projeção era de 3,6%, portanto, houve brusca alteração nas perspectivas inflacionárias.

Ainda assim, o percentual apontado nos últimos prognósticos está dentro da meta central de 4,5% o que, certamente, foi um aspecto preponderante para a decisão de estabilizar a Selic. Não obstante o evidente choque nos preços ante as razões supracitadas, não há contaminação geral nem descontrole.

Outro aspecto que influenciou a manutenção da taxa básica foi a tentativa do governo de incentivar o arrefecimento do juro cobrado pelas instituições financeiras. Mesmo com a série de cortes na Selic, o efeito que se viu no custo do crédito ao consumidor foi limitado. O interesse do BC é baratear empréstimos, financiamentos e compras de longo prazo, a fim de energizar o consumo, posto que a economia caminha com vagareza.

A estratégia é legítima. Basta lembrar que o Brasil, mesmo contabilizando as últimas reduções, ainda pratica uma das taxas mais hiperbólicas do mundo, sendo o sétimo no ranking dos juros reais, entre 40 países analisados. Fica abaixo apenas de Argentina, Turquia, Rússia, México, Índia e Indonésia.

Contudo, embora a taxa regente tenha recuado de forma contundente a partir da segunda metade de 2016, os juros altos, na prática, mostraram-se deveras persistentes. Assim, o consumidor não tem visto ofertas suficientemente atrativas para tirá-lo da zona de marasmo.

Neste período de volatilidade, em que uma variedade de indicadores fixa obstáculos simultâneos, a política monetária não deve se contagiar pelo alvoroço e pelas reações exacerbadas que rapidamente tomam conta do mercado. É necessário se ancorar em elementos materiais, considerando as múltiplas variáveis que cada decisão pode acarretar aos rumos da economia nacional. A tarefa demanda vasto conhecimento técnico e arguto discernimento.

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