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O sacerdócio e o templo

00:00 · 19.05.2018

Tinha 5 anos quando saí de Crateús. O trem partia 4 horas da madrugada. Meu pai prometeu que eu iria passear no Ipu. Não conseguia conciliar o sono. Ia com minha irmã Maggy, estudante no Patronato. Encantava-me aquele canto magoado do trem. E eu ia vendo as luzes tímidas da cidade, cada vez mais distantes. Ao atravessar a velha ponte, me dei conta de que deixava para trás a fase primeira da minha ditosa infância. Era festa. Bonito aquele canto chão, de poucas notas e de pobre sinfonia. De repente vi de longe a Bica do Ipu, se derramando sobre os alcantis da serra. Um espetáculo que mexia comigo. Estávamos na Estação de A. Martins. Embevecido já contemplava com espanto a cachoeira que eu pensava ser só ilusão. Um mundo desconhecido. Ia para casa do Padre Moraes, meu tio.

Deslumbrei-me com a imensidão da praça, com a Prefeitura, uma Igreja imponente, uma série de unidades de saúde, para se findar com o Patronato Souza Carvalho, dirigido pelas Irmãs de Caridade. Cada dia ainda com luz da derradeira estrela, a cidade se iniciava com a Missa. Mal começava a manhã, eu via um médico que saía da matriz e descia para o seu consultório. Era o grande Dr. Evangelista. Outro mais jovem que ia para o Hospital F. Araújo, era o Dr. Thomaz A. Correa. O tempo passou, e o médico chega aos 95 anos de idade. Ocupou um espaço imenso na nossa vida. A cada momento que o conheço, mais me entusiasmo por sua vida.

A Medicina nasceu quase nos pórticos dos templos. O Xamã, o sacerdote, transitava entre o templo e a tenda de cuidar. Neste quase um século de vida, Thomaz reacende, dia após dia, a figura do cuidador sagrado. Hora está no Templo onde se rende ao seu Deus. Hora está na sua tenda servindo ao próximo. Não se cansa de Deus, pela sua infinita Fé. Não se cansa do outro por sua incansável caridade. Não fui seduzido pela cordilheira ibiapabana, nem por aquela praça imensa, cheia de gente, às vezes cheia de silêncio quando no pino do sol. O que me seduziu foi este Xamã, que nunca se cansou de curar. De mitigar tormentos. De aplacar gemidos e sofrimento. Aos 95, deita um olhar radiante de jovem esculápio. Não erigiu pontes, templos e altares. Construiu vida. Desafiou a dor e a desesperança. Construiu albores de primavera. Desafiou a morte. Dedilhou cuidados. Aspergiu felicidades.

José Maria Bonfim de Morais. Médico cardiologista

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