Artigo

O rabo da besta

00:00 · 29.05.2018

Do italiano Frei Vital de Frescorello ou Vitale de Frascarollo, já apresentado no artiguete anterior, assomou o celebrado Frei Vidal da Penha, depois de permanência no Convento de Nossa Senhora da Penha, em Recife, e a adoção da denominação clerical. Evangelizador das Santas Missões e devoto das Dores da Virgem Santíssima, desbravou os sertões nordestinos, divulgando os princípios da Igreja e a Palavra do Senhor. Na localidade visitada fincava um cruzeiro, medindo vinte palmos de altura o lenho vertical e, dois, cada dos braços. Pedras toscas eram amontoadas para servir de base. O ato solenizava-se pela celebração de uma Missa, no clássico e castiço e latim, entoada por melódicos cânticos e complementada em extenso Sermão.

Este, na quase totalidade das vezes, prenhe de reprimendas e de catastróficas profecias. Dava-se mear de dia ensolarado e abrasador. Anunciador de seca. Cansado e empoeirado, o destemido capuchinho chegou à margem do rio Acaraú. Local desértico e com pouca mata, porém encobridor de olhares e convidativo ao sobrenado. Apeou-se de sua mula, deu-lhe água e amarrou-a num arvoredo. Despiu-se da batina, pendurando-a, juntamente com o chapéu, num galho. Matou a sede e refrescou-se em demorado banho. Ao fim, quando se ia vestir, tomou-se de surpresa e indignação. Alguém usou seu chapéu fazendo-o de penico. Encheu-o com fezes. Iroso, o missionário desistiu da ida a Santana do Acaraú, montou na animália, bateu o pó das alpargatas de rabicho e, antes de rumar para Sobral, vaticinou: "Esta terra e o povo desta terra crescerão para baixo, como o rabo de minha besta."

Geraldo Duarte
Advogado e administrador

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