Artigo

O mito de Afrodite

00:00 · 09.06.2018

Na mitologia grega, Afrodite sofrera um sórdido destino. Seu nascimento deu-se de forma pouco usual: Cronos, Deus do Tempo, decepou os testículos de seu pai, Urano, movido pelo medo de ser expulso do Olimpo. Do esperma derramado ao mar, constituiu-se a personificação da beleza e sensualidade. Criada mediante apenas à presença varonil, a deusa conheceu do contato com as intempéries da jornada mitológica que, para alcançar seus objetivos, fazia-se necessário hipermasculinizar-se. Dos jogos de sedução ao apelo às aparências, a divindade persistia em procurar a razão da sua incompletude: o equilíbrio interior.

E o Dia dos Namorados? O que tem a ver com o mito de Afrodite? De acordo com a psiquiatra americana, Jean Shinoda, há uma disfunção que faz com que os indivíduos "inflem" o outro lado da moeda, acentuando as características inerentes ao sexo oposto. Intitulada "Complexo de Afrodite", esta patologia faz com que o psiquismo opere de acordo com a sentença: "preciso salientar o lado que falta em mim para que eu possa constituir o personagem que falta no interior do outro".

Assim, homens-femininos completam mulheres-masculinas, engendrando-se entre si. Quer que ela compre produtos para ele? Retrate-o como homem do lar, no estilo Rodrigo Hilbert, apresentador de TV. Precisa que ele a presenteie? Abra mão dos símbolos triviais da data, substituindo-os por elementos fálicos como batons, bolsas e sapatos. Neste limbo dos desequilibrados, nada melhor do que se olhar no "Espelho de Afrodite".

Renan Cola

Psicanalista

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