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O mestre e o mar

00:00 · 13.01.2018

Na década de 1980, foram realizados concursos médicos em algumas cidades do Interior. Fui aprovado e lotado em Iguatu. Dr. Hildernando, médico chefe, me confessou que não tinha necessidade de cardiologista. Propôs-me um horário de fim de semana. Viagem cansativa. Hospedava-me no Hotel Municipal. Pouco trabalho, aproveitava para ler e estudar. Numa manhã, me encontro com Dr. Aguiar Ramos. Tinha vindo para uma atividade médica. Voltava para Fortaleza. Viu-me triste e isolado e veio conversar comigo. Disse que tinha feito o concurso e, ali estava trabalhando. Mas ele não aceitou minhas ponderações e foi falar com o médico que estava presente. Não faça isto com o nosso Zé Maria. Veja como ele está triste. Mande-o de volta para Fortaleza. Fiquei surpreso e emocionado com o nosso querido mestre. Este gesto espontâneo. Uma atitude generosa. De amor. O amor é algo que sai de si. Aguiar fez isto para comigo. Há dois meses, ele me mandou pedir um livro. Eu fiz questão de mandá-lo. Era o livro que havia escrito sobre Dr. Carlos A. Studart. Fiquei aturdido quando sua filha afirmava que o rio havia virado mar. Muitos escolhem para afogar-se no oceano, no fim do verão. Ou na mansidão da primavera. Ou no clareio da manhã.

Aguiar deixou-se iluminar com a estrela do Natal para se fazer mar. Quando Jesus nascia, ele nascia para o mar de Deus. A morte nos aflige. Nos desconcerta. Ninguém se ver morto. A morte é angústia. Mas a morte é sobretudo solidão. Nunca vou entender Aguiar se espalhando mar adentro. Solitário? Aguiar era o testamento da alegria. O manuscrito do contentamento. Apeado com uma vereda esticada, se vai. Mas não parte só. Partimos com ele. Os seus pacientes salvos por seu talento e por sua dedicação. E quando a noite se abater sobre o mar, seremos todos seresteiros. A festejar estrelas. A esperar a lua. E ao salso vento afagamos com os nossos encontros. E os vagalhões da separação serão acalmados com o nosso enternecimento por ti, mestre Aguiar. As lívidas marés vão toldar nossos rostos lacrimosos. Vão atirar soluços nas estrelas. E se a treva anoitecer a lua, tu voltas a ser o rio sereno e calmo. Alegre e cantante a descer pelas corredeiras, a nos chamar para o altar da alegria e do encontro. Não posso encobrir com a tez encardida da morte, a quem nos velou com o conopeu da alegria.

José Maria Bonfim de Morais. Médico cardiologista

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