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O Chagas dos Carneiros

00:00 · 14.04.2018

Amigos me incentivam a escrever sobre fatos do passado da nossa cidade, muitos dos quais estão caindo no esquecimento. No nosso cafezinho da tarde, Fradique vai recordando das antigas estórias contadas por seu pai, senhor Esaú Accióly, e aproveito a boa memória dos demais presentes, Leite, Wellington, Tupi e Mauro Gondim, para urdir as próximas crônicas: "o povo vaiando o sol", "os escrachos no Majestic", a estória do Zé Tatá, que era muito disposto e respeitado etc, etc.

Que "belle époque", tão diferente das "fuleragens" de hoje, que pretendem impedir até um simples "fiu-fiu" ou um merecido elogio à beleza feminina. Com a ajuda do amigo Zé Alberto, conto uma "estória mais antiga que o bigode do Keiser". É a estória do cego chamado Chagas, que aqui morou no início do século XX e era náufrago do navio "Baía", que afundou entre a Paraíba e Pernambuco. "Era um homem alto e magro que vestia um camisolão de algodão branco e ceroulas amarradas nos tornozelos.

Usava um chapéu de palha de carnaúba com tranças superpostas e, no pescoço, escapulários, rosários e terços. Numa das mãos trazia um varapau de jucá e na outra um cabresto do carneiro que lhe servia de guia. Seguia-lhe um bando de caprinos que lhe obedeciam prontamente.

Chagas sentava-se nos meios-fios das esquinas e logo o canelau dele se aproximava. Tirava do alforje uma gaita de taboca, começando a tocar variados ritmos. Além do mais, modulava com a boca sons muitos engraçados que faziam a todos gargalhar. O cego era uma verdadeira orquestra.

A segunda parte do espetáculo era a demonstração dos carneiros que dançavam e obedeciam aos seus comandos. Apontava o cajado como se fora uma espingarda e fingia atirar: os carneiros se deitavam como se estivessem mortos.

E Chagas perguntava: "estão todos mortos?" E, imitando o badalar dos sinos, bradava: "ressuscita, cambada!" E a carneirada punha-se de pé, e começava a se dar marradas. Chagas, então, era aplaudido e muitas moedas choviam no seu chapéu". Chagas costumava apresentar-se nas cidades próximas e numa dessas viagens foi e não mais voltou, desaparecendo para sempre...

Rui Pinheiro Silva. Coronel reformado do Exército

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