Debates & ideias

O amado Juarez Leitão

00:00 · 07.04.2018 / atualizado às 01:19

Juarez chega aos 70. A sagrada idade bíblica. Na Divina Comédia, Dante Aliguieri (1265-1321), "nel mezzo del cammin di nostra vita". Presume-se que o autor tivesse 35 anos. Sonhava desfrutar a idade davídica com a alegria e o entusiasmo que o nosso bardo cearense o faz, ao se integrar a este sacro Panteon. A Comédia, chamada de Divina, por sua matiz teológica. Uma espécie de apologética, de poema épico e escatológico. Juarez, como o famoso italiano, é político, professor, pesquisador, filósofo e sobretudo humano. E pintor e bordador de amizades. Experimentou alguns momentos de purgatório. Sei que ele transita no céu de nossa amorosidade. Faz do próprio lar um tabernáculo de amizade.

Quando o sol se amaina, lá está Juarez. Com a casula límpida do aconchego recebendo todos. Todos são abraços e acolhidas no seu seio amoroso. Num Sermão da Montanha festivo, todos são recepcionados com generosidade. Todos se apertam para escutar histórias e causos mirabolantes. Uma tertúlia de amizade. Com a alegria de Maria, sinal de cumplicidade e apreço. No meio da semana, ele faz à quarta-feira ser o nosso sábado inesquecível. O pai ceifado, num oriente de caboclos belicosos, Deus logo o premiou com outro pai. Não era melhor e nem pior, mas pai também.

Quando perdemos um pai, a vida nos sacode nos porões mamertinos da desesperança. Juarez, com poucos passos na vida, com as mãos carregando lágrimas e desalento, recebe o abraço generoso do seu novo pai, Monsenhor Leitão. Herdou dele as mãos postas do sagrado. O facho do saber. O cálice da caridade. Ensinou-lhe o caminho melífluo da poesia. Juarez foi sendo aquele filho amado. Do velho cura do Curtume, herdou a decência. A cultura sólida. Fartou-se no banquete das letras com Padre Osvaldo. Moldou-se nos pórticos solenes da Betânia. Ecce homo. Quase perfeito. A vida nos aproximou no mesmo lagar litúrgico. Nos envolveu o mesmo conopeu sagrado. Cingiu-nos o mesmo cíngulo do afeto.

Padre Bonfim, enxovalhado pelo Palhano, foi exilado de Crateús. Madrugada triste, quando Bonfim se valeu de seu irmão Leitão. Levava consigo Alaide, minha mãe, sr. Ramos e Jesus. E na hora de entregar o Jesus eucarístico ao Leitão, Bonfim desabou em lágrimas. Igreja fechada e Jesus distante. Todas as vezes que me encontro com Juarez, este cenário volta aos meus olhos.

JOSÉ MARIA BONFIM DE MORAIS
Médico cardiologista

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