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Noel Rosa

00:00 · 12.05.2018

Maio foi triste para a nosso cancioneiro: em 1937, com apenas 26 anos, morria Noel Rosa. Conhecido como o "Poeta da Vila", foi a maior lenda da MPB em todos os tempos. Entre os mais notáveis, ele ajudou a configurar o samba - que na época não era uma "instituição" como hoje - e ainda era um ritmo executado com influências dos maxixes e lundus africanos.

Quem o conheceu, diz que Noel era branco como a neve, tinha uma pronunciada deformação no maxilar e tentava se adaptar ao sonho da família, de que se tornasse médico. Mas logo abandonou aquela ideia.

O que muitos desconfiavam é que o compositor, devido ao defeito físico (passou a se alimentar preferencialmente por líquidos) somando-se a vida menos convencional e mais transgressora, morreria cedo. Certamente, foram anos intensos que misturaram lazer, severa boemia e muitos trabalhos.

O poeta preferiu o refúgio do Estácio e de localidades pelas quais aquela nova modalidade musical se espalhava, como Mangueira e do Salgueiro. Lançado em disco aos 19 anos, seu primeiro sucesso, "Com Que Roupa?" colaborava para amplificar o alcance inicialmente restrito do "samba do Estácio". Foi uma consagração nacional, desde aquele ano (1930), lembrado e cultuado até hoje pelas velhas e novas gerações.

A rigor, Noel conquistou uma plateia que estava ainda em formação, seduzindo-a com versos engenhosamente criativos, conduzida por um poeta, de classe média, realizando modificações não apenas musicais, mas também nas letras, trazendo realidades socioeconômicas através de uma crítica social sutil, compondo sambas que se tornaram clássicos, especialmente quando pendula entre o irônico e o amoroso, o político e o romântico. Muitos se lembram de "Gago Apaixonado", "Coisas Nossas", "Três Apitos" e "Conversa de Botequim", um bem-humorado exemplo do estilo carioca de viver.

Nesse espaço, o Poeta encontrou uma interprete perfeita: Aracy de Almeida. Ela era jovem, arrojada, proletária e suburbana (do Encantado), e definiu sucessos como "Palpite Infeliz", "O X do Problema", "O Século do Progresso" e "Último Desejo", sobre o fim de um amor inesquecível justo numa festa de São João cujo desfecho não teve a comemoração dos folguedos juninos.

Autêntico cronista de sua época, falava do cotidiano, criticava a invasão da música estrangeira como no samba "Não Tem Tradução", enfim nada escapava de sua percepção. Foi um precursor. Até hoje, muitos artistas contemporâneos prestam homenagem ao seu nome ao repetir a estética deste notável compositor que, em prejuízo de uma vida segura, se jogou às noitadas com homens negros da Estácio de Sá para viabilizar os diversos caminhos que samba percorreu quando buscava a modernidade.

Durval Aires FIlho. Desembargador

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