editorial

Mais brasileiros emigram

00:00 · 15.09.2018

Disparou, nos últimos anos, o número de brasileiros que decidiram deixar permanentemente o País. Em 2011, a Receita Federal recebeu 8,1 mil declarações de saída definitiva e, no ano passado, foram registrados 21,7 mil desses documentos, 167% a mais. A expansão continua neste ano. De janeiro a junho, 21,3 mil pessoas avisaram que se mudariam para outros países, quase a soma do ano passado inteiro.

Considerando a totalidade da população, a quantidade de saídas não é proporcionalmente expressiva, mas é fato que o crescimento vultoso da evasão é um fenômeno sociológico que merece atenção. Não se trata de mero movimento aleatório, catapultado pelo apetite aventureiro e cultural de tais indivíduos.

Na realidade, o desejo de abandonar a terra natal está ligado à dissipação das esperanças pessoais quanto ao sucesso do Brasil. Sempre houve insatisfação comum com alguns fatores intrínsecos a esta Nação, como a gigantesca carga tributária desproporcional à qualidade dos serviços prestados pelo Estado; a desigualdade social; a debilidade da infraestrutura. Contudo, não bastassem os incômodos históricos, os contribuintes se tornaram espectadores da incessante e avassaladora enchente de crimes, indecência e escárnio nas diferentes esferas da administração pública, após a Operação Lava Jato revelar práticas putrefatas nos bastidores da República.

As crises política e econômica, sem resquício de dúvida, foram o estopim para que mais e mais brasileiros resolvessem desistir de morar aqui. O desemprego se alastrou e continua a pairar sobre mais de 12 milhões de habitantes.

A economia se recupera em primeira marcha e deve demorar para recobrar a energia de outrora, enquanto outros estados ao redor do mundo conseguem crescer com maior vigor.

Ao mesmo tempo, na política, a corrupção deixou marcas de descrença em grande parte do povo, o que contribuiu para a deterioração do sentimento de pertencimento.

O trâmite para migrar legalmente a outros países, em especial para os desenvolvidos, é complexo, mas em busca de qualidade de vida superior e de características diferentes das encontradas na nação de origem, milhares estão dispostos a encarar o processo, ainda que ele seja burocrático e demande recursos financeiros. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, em torno de três milhões de brasileiros residem no exterior, o que representaria pouco mais de 1,4% da população. A maioria está nos Estados Unidos, onde vivem mais de 1 milhão de brasileiros.

Em seguida, estão Paraguai, Japão, Reino Unido e Portugal. Este último vem se tornando reduto constante para os que desejam emigrar, tendo assinalado, somente no ano passado, elevação de 5% na entrada definitiva de brasileiros.

Dados do Banco Central apontam que os investimentos de pessoas da nacionalidade brasileira em imóveis no exterior quase dobram entre 2011 e 2016, passando de US$ 3,6 bilhões para US$ 6,1 bilhões. A tendência é que a debandada continue em trajetória crescente. Não há, por ora, fatos novos que incentivem a permanência daqueles que cogitam desertar.

O quadro poderá mudar quando ou se a economia der sinais convincentes de retomada, com a maior abertura de oportunidades formais e o aumento nos investimentos. Outrossim, o desejo de sair certamente seria menor se mais cidadãos se vissem corretamente representados pelos agentes políticos deste País.

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