Linguagem regional - Opinião - Diário do Nordeste

Editorial

Linguagem regional

24.08.2013

No momento em que o filme cearense "Cine Holliúdy" se torna um dos maiores êxitos de bilheteria do cinema nacional, ao apresentar a singularidade de ser exibido com legenda, por conter muitas expressões do linguajar típico cearense, no caso denominado de "cearensês", outras correntes alertam contra o uso excessivo de palavras estrangeiras na maneira de expressar-se em Língua Portuguesa.

Tal distorção se observa, com cada vez maior frequência, na mídia, na publicidade e em outros segmentos da comunicação cotidiana, que usam e abusam de expressões e palavras oriundas, ou derivadas, de línguas alienígenas. O inglês é geralmente usado como símbolo de sofisticação e conhecimento técnico, mostrando distanciamento das raízes populares.

Vítima de modismos e estrangeirismos, que a internet se encarrega de propalar com mais intensidade, o idioma nacional sofre constantes agressões, inclusive quanto a elementares erros e vícios de linguagem. Estudiosos e filólogos costumam condenar a utilização abusiva de palavras de sentido genérico, usadas à exaustão, em detrimento do rico e diversificado vocabulário nacional.

Entre os citados abusos, são frequentemente mencionados o mau emprego do verbo "reverter", que em seu real sentido significa "voltar à decisão anterior", e a utilização empolada da expressão "a nível de", a qual, segundo puristas da linguagem, não significaria rigorosamente coisa alguma. O emprego repetitivo do gerúndio resulta de uma óbvia imitação da língua inglesa, sempre tão presente na escrita e na fala dos brasileiros.

Mas uma linguagem codificada também foi criada pelos internautas, principalmente em meio aos círculos mais jovens, e muitos já a transferiram para a escrita habitual.

Esses tipos de transposição se verificam bastante em certos textos com veleidades a "atualizados". Contudo, na realidade, apenas modernosos - e até mesmo incompreensíveis - para a maioria dos leitores educados.

Um dos fatores decisivos quanto à banalização e à deturpação do português escorreito, as quais não devem ser confundidas com o processo natural de evolução e as transformações progressivas do idioma, resulta, principalmente, da falta do hábito de ler. No livro "Enciclopédia Contemporânea da América Latina", coordenado por Emir Sader, Ivana Jinkings e Carlos Eduardo Martins, é feita contundente denúncia contra os desvirtuamentos culturais, dos quais sempre foram vítimas o Brasil e a América Latina, onde a crise de leitura chega a ser patética.

Tal evidência se torna inaceitável pelo alheamento dos jovens às questões políticas e econômicas dessas nações, que ainda não atingiram o patamar de desenvolvimento aceitável. Como efeito colateral se encontra a alienação a respeito dos grandes dilemas e questões sociais da época, pouco abordados por autores dos países americanos de origem latina.

O "cearensês" apresentado no filme ora em exibição constitui, pelo menos, louvável estímulo à pesquisa de peculiaridades linguísticas regionais. Situam-se os diálogos dentro do contexto preservador do conceito de nacionalidade, em que a força e a diversidade contidas no regional atingem o universal.

Seria esse um bom tema, sem sombra de dúvida, para eventos como bienais de literatura e encontros culturais, sempre incentivadores, em seus propósitos, ao lançamento de livros e à facilidade de acesso a todo tipo de pesquisas relacionadas a estilos, maneiras de expressão verbal e formas literárias.



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