EDITORIAL

Leitura e autoestima

01:51 · 20.02.2011
Embora haja conquistado alguns avanços no setor da educação, o Brasil ainda se encontra longe do patamar louvável de qualidade na escola pública. Registra-se, sobretudo, notória omissão no sentido de se incentivar os alunos no encaminhamento ao hábito da leitura, com o objetivo de neles desenvolver a capacidade de compreender diversificados tipos de texto. Recentes avaliações comprovam que, em países líderes na tabela do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, entre eles a Finlândia e o Canadá, o hábito de ler decorre, principalmente, do estímulo recebido em casa e da influência exercida pelos pais e familiares.

Um exemplo preciso da eficácia desse produtivo estímulo vem da Coreia do Sul, país que há 60 anos detinha elevados índices de analfabetismo. Para superar o problema, foi introduzida uma reforma educacional que incluía a leitura como item fundamental ao desenvolvimento do ensino de alto nível. Empresas, fundações e as próprias famílias se reuniram em torno do projeto, merecendo registro especial o fato de que uma das maiores redes destinadas à educação, denominada Crianças e Bibliotecas, nasceu da iniciativa de um grupo de mães resolutamente decidido a aprimorar os conhecimentos e as aptidões de seus filhos. Os excelentes resultados não se fizeram esperar: a Coreia do Sul atualmente ocupa uma das lideranças na aferição do Programa Internacional de Avaliação de Alunos.

No Brasil, lamentavelmente, o apego aos livros não é cultivado nem mesmo em meio a alguns mestres. Partindo da premissa de que todo tipo de leitura é válido e contribui, cada qual a seu modo, para a ampliação do discernimento cultural, é constrangedor constatar que são ignorados, por inúmeras escolas, tanto os clássicos da literatura nacional e internacional quanto jornais, revistas e, até mesmo, "blogs" da Internet, todos eles portadores de inegáveis parcelas de contribuição ao costume de ler.

Como já não existe o estímulo em casa, a atuação ineficiente de algumas escolas praticamente em nada contribui para atrair a atenção dos estudantes em relação aos livros. Os analfabetos funcionais se multiplicam, portanto.

Em outros casos, entretanto, ocorre o inverso. Os professores podem exigir além do recomendado para faixa de conhecimento e tornar improdutiva a leitura de obras clássicas pela difícil compreensão, inadequadas para a faixa etária das crianças e adolescentes para a qual elas são prescritas. Às voltas com um livro cujo conteúdo escapa à natural capacidade de entendimento da sua idade, os alunos terminam por rotular de "chata" a literatura como um todo, algo visto como uma obrigação enfadonha e não, como a forma inesgotável de entretenimento e descobertas que realmente é.

Ainda que seja sempre indiscutível a importância da escola no processo de aprendizado, vem se impondo, cada vez mais, o consenso de como é importante a contribuição da família para contagiar os filhos quanto ao saudável interesse por livros, jornais e revistas, com o cuidado de ressaltar o que significa, na consolidação da autoestima de cada um, o fato de tornar-se informado, atualizado e competente para o exercício de futuros desempenhos profissionais.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.