Inverno no Ceará é incerto - Opinião - Diário do Nordeste

Entrevista - Eduardo Sávio Passos Rodrigues Martins

Inverno no Ceará é incerto

28.02.2010

Presidente da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos do Ceará (Funceme)

A consolidação do El Niño torna incerto o inverno no Estado, com maior probabilidade (45%) de ser abaixo da média, diz Eduardo Martins, presidente da Funceme

Quais as perspectivas da Funceme para a temporada de chuva deste ano no Estado?

Lançamos o primeiro prognóstico no dia 17 de janeiro. Naquele momento, a perspectiva que vimos era 45% de probabilidade do inverno ser abaixo da média; 35% em torno da média; e 20% de ser acima da média. Mas existia uma indicação de mudança no quadro do Atlântico. Só que os modelos não estavam ainda capturando essa informação porque trabalhamos com dados do mês anterior para fazer a previsão futura. Era possível observar que estava havendo uma tendência de melhoria das temperaturas de superfície do mar, do Atlântico. Mas não tinha como dizer como isso iria impactar na chuva da região ainda, porque essa mudança favorável nas temperaturas dos oceanos ainda não estava incorporada à modelagem. Resolvemos lançar um prognóstico, em janeiro, referente aos meses de fevereiro, março e abril. Ou seja, o total de chuvas que deveria ocorrer, para depois fazer uma nova avaliação de como seria a projeção incluindo o mês de maio, usando, agora, a informação mais recente dos campos oceânicos. No dia 26, técnicos da meteorologia nacional e dos núcleos regionais se reuniram em Natal (RN) com a finalidade de discutir o prognóstico para os próximos meses.

Houve alguma novidade?

Será mantida a probabilidade estimada no início do ano (45% de chuva abaixo da média, 35% em torno e 20% acima), justamente porque as mudanças que foram verificadas no oceano Atlântico acabaram não impactado no que diz respeito aos modelos do regime de precipitação das regiões Norte e Nordeste.

É possível afirmar que está caracterizada uma seca?

Não, porque mesmo para anos de El Niño, evento que faz com que haja, geralmente, uma alta pressão sobre o Norte e o Nordeste, tornando desfavorável a ascensão de umidade para formação de nuvens e consequente precipitação, é possível ocorrer chuva acima da média. Ao analisar os dez maiores El Niño (1950/1995), foi possível perceber que, em dois anos, tivemos chuva acima da média. Por isso há esta incerteza porque existem fatores globais que influenciam no clima da região que ainda não conhecemos e que a modelagem não leva em consideração.

Qual é a participação do El Niño no desempenho da chuva no Ceará ou outros componentes influenciam também?

O Atlântico também. Quando há um El Niño, é formada uma célula de circulação, isto é, como se o vento subisse e fosse para dois caminhos: se desloca para o Norte da América do Sul, impedindo a ascensão da umidade, formação de nuvem e a precipitação. Situação semelhante acontece na região da Austrália, na Oceania. Quando as águas estão frias não existe este movimento de circulação, ocorrendo a La Niña. A influência do Atlântico é mais indireta, não diretamente como no caso do El Niño. Quando o aquecimento está mais na bacia do Atlântico Sul, a convergência acontece mais no Sul, e a zona de convergência não pode entrar no Ceará, temos chuva.

No ano passado o que predominou foi o fenômeno La Niña?

Tanto em 2008 quanto 2009 a influência foi da La Niña com chuvas verificadas no período de fevereiro a maio.

O El Niño continua em ascendência ou dá sinais de enfraquecimento?

Ele está consolidado como um El Niño intermediário entre moderado a forte. A tendência, de acordo com os modelos e as análises, é de que teremos uma quadra chuvosa abaixo da média histórica este ano.

Chuva abaixo da média significa seca? Qual a média do Estado?

A média varia de região para região. No Ceará, a média fica em torno de 700 a 800 milímetros e contada para o período de fevereiro a maio. Para a Sertão Central e Inhamuns, varia entre 430 a 577mm; na região da Ibiapaba, os valores sobem de 602 a 880. No litoral, o abaixo da média ainda pode significar uma boa quadra, em termos de produção agrícola. Por isso, não posso afirmar categoricamente que será seco, depende de como vai ser essa distribuição das chuvas porque a produção agrícola é muito afetada pela ocorrência de veranicos.

O Estado está preparado para minimizar os efeitos das secas?

Hoje, temos um aparato. O açude resolve o problema da falta de água em comunidades e cidades ligadas ao sistema hídrico, ou seja, que tenham acesso às águas dos reservatórios diminuindo a vulnerabilidade dessas populações. Mas, por outro lado, a população difusa não tem acesso ao sistema de adutora e águas dos reservatórios. A população do sequeiro (semiárido) é mais afetada nesses anos secos. Hoje, em termos de recursos hídricos, não estamos tão vulneráveis como antes, temos os açudes com nível alto de armazenamento.

Essa reserva hídrica daria para suportar estiagem por um período de cinco anos, por exemplo?

Não vamos para cinco anos que é muito tempo. Até porque, no momento, contamos com sistemas que interligam as bacias, daí, fica claro que, nem sempre chuva abaixo da média pode atingir todo o Estado. Existe o programa de interligação de bacias, como a bacia metropolitana, ligada à do Jaguaribe que, de alguma forma, diminui ainda mais a vulnerabilidade. Isso é apenas uma possibilidade, mas pode ocorrer que o Sul do Estado tenha um ano ruim em precipitação e vazão, e ao mesmo tempo, termos no Norte e na região metropolitana os reservatórios abastecidos pelas precipitações que ocorrem na bacia metropolitana. É importante essa relação entre bacias nas diferentes regiões porque diminui esta vulnerabilidade.

Parte dos problemas ocorridos em 2009 com as populações ribeirinhas foi devido à falta de segurança no momento de escoar a água represada dos reservatórios...

Existe ainda a probabilidade da temporada de chuva ser acima da média. Por isso foi montada uma comissão para estudar a cheia da qual participam a Cogerh, a Funceme e o Dnocs entre outros órgãos que estão trabalhando exatamente para estudar como deve ser essa liberação. A decisão será com base no grupo técnico e validada pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos. Então, essa preocupação existe. É preciso ter em mente que mesmo em ano seco, a possibilidade de eventos pontuais que podem provocar cheias não pode ser descartada. Devem ser amortecidos para evitar prejuízos nas regiões não controladas, como a do Baixo Jaguaribe, principalmente, a exemplo do que aconteceu no ano passado. Mesmo que quisesse não seria possível controlar a cheia em 2009 porque boa parte dela aconteceu nesta região, onde não tínhamos controle. Estão sendo realizadas ações estruturantes, como a construção do açude Figueiredo, bem como estudos de gestão a fim de amenizar o problema. Existe a tendência para uma mudança de cultural e que vai afetar algumas populações de determinadas regiões do Estado do Ceará, sobretudo no semiárido.

Quais são essas mudanças?

A questão de passagens molhadas é uma delas. Como elas são construídas hoje? Talvez a gente tenha que repensar essas construções porque com a vazão de 100 metros cúbicos por segundo, no Castanhão, já existem algumas dessas passagens sendo afetadas. Será que é a liberação que está errada? Mas um reservatório do tamanho do Castanhão não poder liberar este volume de água visando ao controle de uma cheia? Existe uma probabilidade razoável de um ano acima da média, e mesmo sendo abaixo da média podemos ter eventos de cheia, por isso é preciso se preparar com antecedência.

É inegável a importância dos açudes, mas em 2009 ficou clara que a falta de controle foi um agravante para as cheias. Eles são ainda necessários?

Temos muitos açudes, mas poucos para controlar cheias. Para que cumpram com esse papel devem ter estrutura para tal fim, as comportas, como o Banabuiú e o Castanhão. A chuva do ano passado aconteceu justamente onde não temos controle, no Baixo Jaguaribe, alagando cidades. Os açudes só podem controlar cheia se forem projetados para esse fim. Antes, eram construídos para acumular água já que a nossa preocupação era o período crítico, que ainda continua sendo, a sustentabilidade hídrica para o abastecimento humano.

Essa situação de instabilidade pode prejudicar a safra agrícola do Estado?

Na realidade, fazemos uma previsão de chuva. Existe um longo trabalho entre a previsão de chuvas e a dos impactos. Temos realizado muitos trabalhos na área dos recursos hídricos para fazer a ligação entre a previsão de chuvas e de afluência dos reservatórios em conjunto com a Cogerh exatamente para essas previsões de afluência serem usadas na programação no sistema de alocação de águas para vários usuários. Na parte de agricultura, temos um longo caminho a percorrer. A gente precisa de um profissional que faça esta ligação entre as partes de clima e também de previsão de safra. Estamos procurando uma melhor forma para fazer esta ligação que ainda muito tênue.

Caso seja concretizado um ano de seca, quais as regiões que serão mais afetadas e quais as perspectivas para o semiárido?

Não conseguimos ainda olhar com detalhe quais as regiões que poderão ser mais afetadas. Em alguns anos, até que a gente consegue fazer essa diferenciação, o que não acontece este ano, considerado difícil para este tipo de avaliação. Os modelos não oferecem cenários claros apontando como será essa precipitação no período.

E com relação à temperatura o cearense poderá enfrentar ainda mais desconforto?

O desconforto causado pelo aumento da temperatura ocorre no período mais seco, geralmente, as máximas de temperatura acontecem no mês de novembro. Então, enquanto não houver a precipitação cujo sistema está associado, ao movimento dos ventos, iremos ter esse tipo de reclamação.

Até agora, qual o balanço que o senhor faz da quadra chuvosa deste ano?

Até agora, nada de significativo, foram apenas chuvas pontuais e isoladas. Quando a gente faz a previsão do clima não pode afirmar que vai ser seco. A ciência não pode afirmar que tem cem por cento de certeza que será abaixo da média, isso não existe. Na verdade, é um sistema dinâmico e pode haver perturbações que mudem o comportamento por isso trabalhamos com categorias de probabilidades: acima, em torno e abaixo da média. Temos ainda a chance de ser 20% acima da média mesmo diante desse quadro de temperatura nos oceanos. E essa probabilidade não é desprezível.

É possível associar as transformações climáticas ao aquecimento global?

É difícil afirmar ou provar que existe uma ligação direta, mas existem indícios constatados, portanto, não dá para negar essa realidade. Temos o degelo no Himalaia e evidências fortes de que esta aquecimento está acontecendo e os modelos em termos de mudança de temperatura apontam para um aquecimento. Para o Nordeste, existe um modelo que aponta para redução de 20% de chuva e, outros, que irá aumentar para o mesmo percentual. Os cenários mais otimistas apontam para o aumento de dois graus na temperatura, outros dizem ser quatro.


IRACEMA SALES
REPÓRTER


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