Editorial

Instabilidade persiste

00:00 · 05.06.2018

Mesmo encerrada a greve dos caminhoneiros, o País dificilmente terá, nos meses subsequentes, um cenário de estabilidade que o permita voltar a crescer. Aliás, o Brasil parece ter se acostumado com o caos.

Nos últimos quatro anos, uma coleção de crises atordoou o Estado brasileiro e seu povo, estabelecendo o pior dos ambientes para o desenvolvimento. Mas a onda de turbulências não acabou. Outros fatos e circunstâncias internos e externos podem estremecer ainda mais a economia nacional.

O mês de maio foi dos mais conturbados, a paralisia e o desabastecimento dando o tom dominante. Conforme analistas, não há razões contundentes para crer em melhora no futuro próximo. A instabilidade e a imprevisibilidade devem seguir em voga.

Isso deve ser sentido fortemente no câmbio. A tendência, conforme as mais recentes projeções, é que o real mantenha a curva de desvalorização em relação ao dólar. O noticiário deste mês de junho provavelmente incluirá o anúncio do aumento da taxa de juros nos Estados Unidos. Na reunião de maio, o Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve (o Banco Central americano) já sinalizou que a taxa básica de juros seria elevada no mês corrente.

A novidade deve acarretar consequências severas para o Brasil, como a fuga de investidores e o derretimento da moeda nacional. Em maio, o real acumulou queda de 6,6% ante o dólar, com a cotação ultrapassando a faixa de R$ 3,75. O contínuo encarecimento do dólar pode afetar a vida do consumidor, o qual verá os preços de alguns produtos sofrerem inflação.

No mercado de ações, a volatilidade tende a ditar o ritmo dos negócios. Não bastasse a queda abissal das ações da Petrobras no mês passado, nada garante que a Bolsa vá se recuperar de imediato. Em maio, ela amargou o pior desempenho mensal desde setembro de 2014. A perda foi de 10,8%.

No âmbito interno, o que deve influenciar sobretudo é a aproximação da eleição. Faltam praticamente quatro meses para o primeiro turno, a ser realizado em 7 de outubro, e nenhum fato novo foi capaz de dissipar a nebulosidade em torno do processo que escolherá o próximo presidente da República. Até o momento, os projetos e as posições dos principais postulantes ainda são pouco conhecidos, o que causa natural desconfiança no mercado acionário e na população. As pesquisas de intenção de voto mostram que o eleitor ainda está deveras indeciso e descrente.

O surgimento de propostas sérias e realistas para os campos fiscal e econômico pode acalmar os ânimos de investidores e empresários. Caso contrário, se o debate se concentrar no mero populismo e em soluções demasiadamente fáceis, as perspectivas serão péssimas.

É preciso tocar em temas indigestos, como a Reforma da Previdência e a Tributária. Fingir que esses enormes problemas não estão na sala de estar apenas estenderá as crises.

Uma vez que o governo federal se mostra cada vez mais apático, é possível que novos colapsos episódicos irrompam, com potencial para atravancar os lentos passos que vinham sendo dados.

O País esgotou, há muito, sua cota de crises institucionais e econômicas e clama por estabilidade. Contudo, não é isso que os próximos meses anunciam dentro da lógica das coisas. O quadro externo desfavorável para o Brasil e o imponderável curso dos eventos internos criam mais preocupações do que certezas.

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