Editorial

Influência externa

00:00 · 20.03.2017

A decisão do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, de elevar a taxa de juro daquele país pela terceira vez em uma década, mostra que a economia da maior potência do mundo está a todo o vapor, o que traz repercussões em todos os mercados. Os emergentes, em especial, tendem a sofrer as maiores influências, portanto, este é um assunto que muito interessa ao Brasil, que ainda enfrenta com dificuldade suas vicissitudes internas e, agora, tem de adicionar esse fator estrangeiro em suas equações.

Em decisão bastante antecipada pelos analistas de mercado, o Fed acresceu 0,25 ponto percentual ao juro básico estadunidense, levando-o a 1% ao ano, patamar que, se comparado à taxa praticada no Brasil, parece coisa de outro mundo. Há, ainda, a perspectiva de duas novas altas em 2017. Até o ano de 2019, o juro norte-americano deve manter a trajetória e chegar a 3% anual.

A estratégia de escalada adotada pelo Fed deve, paulatinamente, fortalecer o dólar, sobretudo ante as moedas dos emergentes. Em relação ao real, o câmbio estimado pelo boletim Focus para o fim deste ano é de R$ 3,30, acima do fechamento dos pregões das últimas semanas, entre R$ 3,10 e R$ 3,20. O presidente do Banco Central avisou que, para evitar volatilidade excessiva, a autoridade monetária pode intervir por meio dos instrumentos de que dispõe.

A preocupação maior diz respeito à crescente probabilidade de fuga de investidores nos emergentes. Os conservadores, especialmente, pendem para a migração às economias com maior robustez, característica que os Estados Unidos vêm mostrando em indicadores importantes, como emprego e produtividade. Inclinada ao protecionismo, a administração de Donald Trump tem estimulado e até pressionado as empresas a priorizarem os investimentos domésticos, a fim de aquecer o mercado de trabalho e acelerar sua economia.

Logo no momento em que o Brasil tenta se desgarrar da areia movediça da recessão, a evasão de investimentos pode ser mais um aspecto a atrasar a reabilitação. O País briga justamente para atrair dinheiro pela limpeza da sua reputação manchada nos últimos anos pelo caos político e o mergulho na crise econômica, destoando da marcha do restante do mundo. Alavancar investidores sem estabilizar essa situação é inexequível, até porque componentes fortes do Palácio do Planalto estão em xeque por conta de denúncias no âmbito da Operação Lava-Jato, o que complica a governabilidade e a aprovação de reformas, dando espaço para a propagação de protestos.

A agência de classificação de risco Moody's alterou a perspectiva do País, de negativa para estável. Boa notícia, mas um mês antes a Standard and Poor's havia reafirmado a projeção pessimista, bem como fizera a Fitch em novembro do ano passado. Isso mostra que ainda não existe clareza nem mesmo entre os especialistas sobre quando e como se dará a retomada.

Enquanto isso, os Estados Unidos impõem ritmo firme, com a criação de oportunidades de trabalho. Por lá, o desemprego está em apenas 4,7%, após a geração de 235 mil postos somente em fevereiro, o que seria um sonho para o Brasil, cujo desemprego atinge mais de 12% da população economicamente ativa.

Apesar dos percalços, a bonança norte-americana não é um entrave cabal para o Brasil. É, sim, uma pedra no sapato, pois o País tem desafios internos mais expressivos a superar e precisa esquecer as confabulações políticas e focar em medidas efetivas para o resgate da economia.

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