Editorial

Impulso empreendedor

00:00 · 26.04.2018 / atualizado às 01:27

O empreendedorismo deverá prover o maior impulso ao mercado de trabalho brasileiro neste ano. Estudo realizado por um dos maiores bancos do mundo concluiu que metade das vagas a serem criadas em 2018 nascerá da força empreendedora, característica imanente ao País. A projeção do levantamento é que 2 milhões de oportunidades de trabalho sejam abertas ao longo do ano, das quais 1 milhão seria concebida pelo crescimento da atuação de pequenas empresas e do trabalho autônomo.

A pesquisa é mais uma a reforçar que o emprego formal continua fragilizado, pois a recessão, mesmo a distância, continua a impedir a recuperação robusta do quadro de contratações. Percebe-se que, para o mercado formal voltar a crescer a contento, é necessário nível de confiança do consumidor muito mais elevado do que o atual.

Pelos recentes movimentos políticos e econômicos, a imprevisibilidade continua. A inconstância das pesquisas presidenciais, com cada novo resultado mostrando cenários diversos, é o principal fator de obstáculo à estabilidade. Externamente, a insegurança com a guerra comercial travada por Estados Unidos e China também dá tons ondulatórios, ao ponto de o dólar atingir, recentemente, as mais altas cotações desde 2016. As estatísticas do Caged, que consideram apenas empregos com carteira assinada, melhoraram, mas ainda falta muito para absorver a enorme massa excluída durante a recessão.

Naturalmente, o empreendedorismo tende a borbulhar em situações como esta. O fenômeno ocorre, em geral, por oportunidade ou necessidade. No caso do primeiro, o indivíduo enxerga espaço para abrir um negócio em determinada área com potencial para êxito mesmo na crise, ainda que, para tal, precise largar sua área de atuação costumeira. Já no segundo, a busca por empreender se dá por força maior, quando o desemprego persistente não dá outra alternativa ao trabalhador se não investir no próprio negócio.

De acordo com pesquisa da Boa Vista SCPC, o número de novas empresas cresceu 13,6% no ano passado em relação a 2016. A expansão de microempreendedores individuais (MEI) foi a mais expressiva (19,1%). A maior parte dos negócios criados pertence aos setores de serviços, que concentram 55,9%, e o comércio (35,1%). No Ceará, conforme dados da Junta Comercial, 11,4 mil empresas foram abertas em 2017, número 17% superior ao de empreendimentos que foram encerrados no período.

Diagnóstico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) torna evidente a forte tendência do Brasil ao empreendedorismo. Aponta que 35% das empresas que atuam no mercado nacional possuem, no máximo, dois anos de fundação, portanto, muito jovens. O percentual brasileiro fica abaixo apenas de Eslováquia, Romênia e Letônia. O lado positivo é que novos estabelecimentos continuam surgindo, com fôlego e ideias renovadas. O negativo é a baixa taxa de sobrevivência de tais estabelecimentos. De acordo com o Sebrae, 23% das empresas no Brasil encerram as atividades precocemente, nos dois primeiros anos de existência.

Repousa no ímpeto empreendedor a esperança de irrigação nas ocupações de trabalho, pelo menos nesta fase de lenta e árdua retomada. Todavia, a configuração ideal para o mercado é de uma complementação mais consoante entre empreendedorismo e abertura de vagas formais, com a informalidade em menor escala.

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