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'Formido mortis'

00:00 · 07.10.2017

Neste setembro que termino meu estudo sobre a Escatologia, vejo estarrecido o desafio do Suicídio. Escatologia significa os últimos momentos. Muitos teólogos acham que a Escatologia é a própria Teologia. A religião cristã oferece o que nenhuma outra oferece. Oferece a esperança. A escatologia católica é a aurora da esperança. Neste mesmo mês, vi minha filha Alaíde pregando contra o suicídio. S. Paulo afirma que o nosso último inimigo é a morte. Mas para o suicida a morte é a sua última saída . Laidinha como a chamamos é uma psicóloga cheia de ternura e de sorriso. Lembra muito a sua avó Alaíde, que brinca com os seus quase 102 anos de idade. A "Formido Mortis" é a angústia da morte. Morrer é terrivelmente angustiante. Mas o suicida encontra nela a última solução para o seu sofrimento. O suicida foge de seu cativeiro.

Santo Agostinho afirma que para entender o homem, não precisa sair. Precisa entrar. Pois o homem é a sua interioridade. O seu íntimo. O seu âmago. A sua intricada rede de possibilidade. 12 mil pessoas se suicidam anualmente no Brasil. 26 por dia. Uma a cada 40 minutos. Muitos jovens, ainda se aquecendo na aurora da vida. Ainda orvalhado pelo rocio, que se abre em sol ridente. Abatem-se em pleno voo. O suicídio não é revolta. Não é fraqueza. Não é desgosto. Não é mandiga e nem feitiçaria. O suicídio é doença.

Tudo pesa. A alma pesa. A vida pesa. A alma destroçada e quase morta. Vicente de Carvalho, no seu poema "Fugindo do Cativeiro", escreve: " dentro se revolta a carne; explode, o instinto bruto, e quebra-lhe a vontade, mas, vosso grande amor que tanto pode, pode menos que a indômita ansiedade". 90% dos suicidas têm distúrbio do humor. A grande maioria deprimida. O suicídio não é o início. O suicídio é o desfecho. É o epílogo. Da mesma forma, da pessoa que morre de infarto do miocárdio. O suicídio não é um simples conto. É um romance com final trágico.

Pedro Nava, Fernando Paulino, René Favaloro, grandes nomes deram fim à vida. A morte do suicida nunca finda. É uma dor que não se acaba mais. Para nós que temos na vida, o maior bem, dela o suicida se queixa. Este é o bem que nos custa tanto. Para ele é dossel de queixas. E a morte que é a nossa suprema angustia, para ele é a saída, que espreita. Mesmo assim, o suicida não pode imaginar a dor e saudade que nos deixa.

José Maria Bonfim de Morais. Médico cardiologista

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