Editorial

Êxodo de talentos

00:00 · 23.06.2018

A instabilidade econômica e o cenário delimitado por incertezas aumentam a quantidade de brasileiros que deixam o País para buscar, no exterior, oportunidade de emprego e melhor qualidade de vida.

Esse fenômeno já aconteceu no passado, em outros momentos de dificuldades. Contudo, ao contrário de vezes anteriores, quando o êxodo atraía, sobretudo, profissionais com pouca aptidão e baixo nível de estudo, a atual procura pelos destinos internacionais para fixar residência se transformou em opção mais comum entre empreendedores experientes, além dos jovens estudantes de elevada formação acadêmica.

Vários deles, levados pelo temor do desemprego, acreditam que a almejada estabilidade profissional somente pode ser alcançada em nações cujo ambiente econômico seja vigoroso. Também creem que aguardar 10 ou 20 anos é pouco tempo para uma nação superar seus desafios prementes, mas é longo demais para uma existência humana.

Cada talento jovem que emigra coloca em risco o futuro do País que precisa da força de trabalho de todos os seus filhos.Os Estados Unidos e países europeus, de economia forte e estável, concedem visto para empreendedores estrangeiros interessados em estabelecer negócios no território norte-americano. O desejo de deixar o Brasil entre esse público de alto nível é novo e de causar preocupação.

O número de pessoas que deixam definitivamente o Brasil é informado pela Secretaria da Receita Federal. Quando o brasileiro passa a morar no exterior, é obrigado a declarar a saída ao órgão, a fim de que seus rendimentos mantidos aqui fiquem imunes às retenções aplicadas a quem é residente.

No Ceará, entre janeiro e maio de 2018, foram entregues 52 declarações para informar a saída para outra nação. O dado supera todo o ano passado, quando foi registrado o recebimento de 49 documentos dessa natureza.

No âmbito nacional, nos primeiros cinco meses do ano, foram recebidas 20.037 declarações de saída definitiva, quantidade semelhante à de todo 2017, com 21.849 declarações. Em 2013, quando não existia crise na economia, apenas 8,4 mil contribuintes comunicaram que passariam a residir no exterior.

Levantamento realizado pelo Instituto Datafolha traz outra informação quanto à intensificação da fuga de talentos. A pesquisa revela que a debandada não é mais intensa em face de muitos brasileiros não reunirem condições suficientes que permitam a migração. Todavia, aproximadamente 70 milhões de pessoas com 16 anos ou mais deixariam o Brasil se pudessem. Ademais, 56% dos adultos com ensino superior afirmaram que gostariam de morar em outro país.

O clima de desalento abate os brasileiros desde a eclosão da crise econômica aliada a uma absurda crise política. Em paralelo, está a crescente ameaça da insegurança pública, enquanto o desemprego em massa e a falta de perspectivas de trabalho a curso prazo deixam as pessoas à beira do desespero.

Diante dessa conjuntura, nasce um mundo de ilusão de que lá fora será melhor do que aqui. Para os afortunados, o sonho pode virar realidade. Mas, para a grande maioria desses que emigram para terras estrangeiras, é mais provável que venham a se arrepender do gesto. De qualquer forma, essa onda de pessimismo causa graves prejuízos à Nação, pois ela sempre estará perdendo o capital financeiro dos empreendedores e o capital humano dos cérebros mais promissores, um desfalque sério e irreparável para seu desenvolvimento.

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