Editorial

Estagnação do SUS

00:00 · 02.05.2018

Reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como o maior sistema público do mundo, o SUS (Sistema Único de Saúde) se notabilizou ao universalizar o acesso à saúde da população brasileira e se tornar referência em atenção primária. No entanto, passados 30 anos desde que foi regulamentado a partir da promulgação da Constituição de 1988, o sistema estagnou. O setor exige mudanças que vão desde a forma de seu financiamento até a atualização de suas atividades de acordo com as novas demandas do setor.

Anualmente, estados e municípios investem aproximadamente R$ 240 bilhões em Saúde. O montante representa pouco mais da metade da média mundial do gastos públicos com tal esfera. Sem recursos disponíveis para expandir o SUS, a estrutura dos hospitais que oferecem atendimento gratuito estancou e ficou abaixo daquilo que se almeja numa unidade cuja obrigação é deferir o melhor tratamento a seus pacientes.

Com a evolução da medicina no âmbito mundial, a incorporação de novas tecnologias se transformou em item primordial não apenas para combater doenças de alta complexidade, mas também para aprimorar o atendimento básico. Na rotina das unidades de Saúde, porém, nem mesmo a manutenção de equipamentos simples, como aparelhos de Raio X, é eficiente. Frequentemente, em quase todo o País, há relatos de casos em que pacientes foram impedidos de se submeter a esse tipo de exame em face de as máquinas estarem quebradas.

A distribuição de médicos pelas unidades de Saúde é outra limitação do SUS. Embora existam 450 mil formados em medicina que exercem a profissão, o maior número já registrado na história brasileira, e exista perspectiva de esse total alcançar o marco de meio milhão em 2020, o crescimento do contingente não resultou numa distribuição equilibrada que permitisse elevar o acesso das pessoas a esses profissionais.

Conforme levantamento da Universidade de São Paulo (USP), nas localidades com menos de 20 mil habitantes, o que equivale a 68% das cidades brasileiras, existe menos de 0,40 médico por mil moradores. A maioria dos profissionais prefere atuar em grandes centros urbanos, enquanto o poder público não dispõe de programas de atração de médicos para as áreas desassistidas. De acordo com a pesquisa, 84% dos egressos do curso de Medicina afirmam que as condições de trabalho são o fator determinante para definir a fixação em uma instituição ou num município.

Expandir a estrutura do SUS também requer rapidez na revisão das estratégias ante o envelhecimento da população. O número de brasileiros com mais de 60 anos superou 30 milhões no ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Estima-se que 70% dos idosos dependem exclusivamente do sistema público de saúde.

Na prática, contudo, não há profissionais suficientes para atender bem esse público. São ainda limitadas as campanhas de conscientização para que as pessoas adotem hábitos saudáveis, a fim de evitar o surgimento de doenças crônicas na velhice; mais raras são as ações para garantir o acompanhamento do idoso.

As carências são amplamente conhecidas por quem busca atendimento no SUS. É preciso elaborar plano com metas bem definidas e priorizá-las, sem deixar que contratempos orçamentários interrompam sua execução, pois uma população doente traz perdas muito mais onerosas ao desenvolvimento nacional.

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