Artigo

Eléctrico 28

00:00 · 02.01.2018 / atualizado às 00:35

Por mais que se visite Lisboa, percorrer novamente o itinerário e, até os mesmos conhecidos locais de tráfego do "Amarelo", é sempre prazeroso. Passeio nos antigos eléctricos (como os lusitanos denominam seus bondinhos) importados dos USA, em 1901, substituindo os puxados a cavalo, faz-se emocionante e agradável.

Em especial, a linha do Eléctrico 28, que sobe e desce as colinas da cidade, num trajeto de aproximados 70 quilômetros. Transporte público não somente utilizado por turistas, mas também de uso frequente dos moradores das áreas do percurso. O "28" inicia viagem na Praça Martin Moniz, avança entre vielas da Alfama, passa na Catedral da Sé e Igreja de Santo Antônio, Rua Augusta, Praça do Comércio, Elevador de Santa Justa e Graça. Aqui, visitar o Miradouro e avistar o Castelo de São Vicente é ideal. Em seguida, rumar para o Castelo de São Jorge.

No regresso, deixar o olhar espalhar-se nas paragens da "Lisboa de outras eras..." e prestar tributo a ele. A ele? Ah! O passageiro diário daquele veículo no século passado. Residente do Largo de São Carlos, no Chiado, todas as manhãs ia ao centro. E, nos finais de tarde, depois de entreter-se no Café e Restaurante Martinho da Arcada, na Praça do Comércio, retornava a casa.

"Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é o meu costume, em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de mim. Para mim, os pormenores são coisas, vozes, letras. Entonteço. Os bancos do eléctrico levam-me a regiões distantes, multiplicam-se-me em vidas, realidades, tudo. Saio do eléctrico exausto e sonâmbulo.", grafou Fernando Pessoa.

Geraldo Duarte 
Advogado e administrador

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