Artigo

Distorções urbanas

00:00 · 18.03.2017

Fortaleza ostenta simultaneamente níveis estratosféricos de violência, dengue e agora Chikungunya, também pelo fato de ser mal ordenada territorialmente. A marginalidade, assim como o Aedes mantém com a cidade uma relação de parasitismo, alimentando-se e proliferando nos vazios e na escuridão.

Jane Jacobs, urbanista consagrada, provou que a segurança não é feita só pela Polícia, mas "pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados". Trata-se da boa e velha vigilância da comunidade sobre o espaço urbano.

As condições para que o cidadão contribua para a segurança coletiva são a nítida separação entre o público e o privado, propiciando um controle automático sobre o fluxo do movimento, além de um planejamento que priorize coisas simples como fachadas voltadas para a rua, calçadas desobstruídas e bem iluminadas, e o adensamento de áreas para evitar grandes terrenos inutilizados. Nesse cenário, praticar crimes ou proliferar doenças sob as vistas de todos seria bem mais difícil.

Terrenos particulares objeto de disputas judiciais ou com limitações administrativas impostas - a maioria sem indenização ao proprietário e sem plano de manejo - transformam-se em antros de bandidos, rampas de lixo e agora, segundo as notícias, em focos de dengue, zika e chikungunya por falta de uso. Algumas áreas públicas viraram vetores de raiva animal, que se alastra entre as centenas de gatos abandonados pela cidade. As terras não são dos donos que pagaram por elas, também não são da coletividade, pois o poder público não decide o que fazer com elas. São do bandido e do mosquito! Assim, não tem vacina que resolva, nem Polícia que dê jeito.

Paulo Limaverde
Jornalista

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