editorial

Dirimir discrepâncias

00:00 · 20.04.2018

Estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre a trajetória da desigualdade no País, ao estabelecer comparação entre os cenários de 2016 e 2017, traz retrato acerca da composição do rendimento da população diante dos efeitos da crise econômica e sua reação durante primeiro ano em que o PIB (Produto Interno Bruto) voltou a ficar positivo.

Em geral, as disparidades ficaram estagnadas no ano passado, mas a análise por território evidencia como a situação piorou em quatro das cinco regiões, incluindo as duas áreas mais pobres do mapa: Nordeste e Norte. O levantamento expõe erros nas estratégias para combater o desequilíbrio social e aponta o peso de 12 milhões de desempregados na intensificação das discrepâncias.

O cálculo do IBGE é baseado no Índice de Gini, a partir do qual a concentração de renda é medida numa escala de 0 a 1. Quanto mais alto, mais desigual é a sociedade. No Nordeste, o indicador subiu de 0,555 para 0,567. Em 2017, metade da população recebia, em média, 50% do salário mínimo, enquanto a renda desse grupo, no ano anterior, equivalia a 57%. No Norte, o coeficiente foi de 0,539 para 0,544. Os contrastes também avançaram no Centro-Oeste (de 0,523 para 0,536) e no Sul (de 0,473 para 0,477).

O único movimento de melhora foi detectado no Sudeste (de 0,535 para 0,529), mas não há nada para se comemorar nessa redução, pois foi provocada pelo recuo na renda da parcela da população mais rica da região. Com expressiva parcela da população pobre dependente do Bolsa Família, a ausência de reajuste no valor do benefício ajudou a compor o resultado pífio da região.

No entanto, é a queda na renda do trabalho, influenciada pelo alto número de pessoas que não conseguiram a recolocação no mercado, o dado que impõe maior preocupação. É a partir de uma franca expansão do emprego que pode se iniciar processo de melhor distribuição de renda. A concessão de auxílios alivia o bolso do indivíduo, porém não elimina o nível das desigualdades.

No geral, caiu de 60,5% para 60,2% da população o volume de pessoas que receberam, em 2017, rendimentos oriundos do trabalho. No Nordeste, o recuo foi mais forte, de 57,1% para 56,5%. Em contrapartida, aumentou de 18,7% para 19,8% a parcela de brasileiros cuja renda vem de aposentadorias e pensões. Ao estabelecer relação com nações que possuem perfil demográfico semelhante ao do Brasil, o dado assusta, pois a diferença é gritante. No Chile e na Argentina, o índice está entre 8% e 10%.

A situação observada no Ceará é semelhante à realidade verificada no Nordeste. Embora a renda média dos cearenses tenha avançado de R$ 1.403 para R$ 1.503, o Estado saltou da 8ª para 7ª colocação no ranking entre as unidades da Federação mais desiguais. O único conforto vem da renda média do trabalho que, na contramão da tendência nacional, foi de R$ 1.394 para R$ 1.464.

A avaliação do IBGE poderia ser pior no contexto de inflação alta; felizmente, ela chegou no ano passado a um dos patamares mais baixos. Se o preço dos alimentos, item que mais pesa no orçamento das famílias, não tivesse sido controlado, a grande parcela da população mais pobre teria sido mais penalizada.

Portanto, a fim de evitar que, a cada ano, os contrastes sociais se evidenciem, urge assimilar que o combate à desigualdade é complexo e tem de ser multifacetado, reunindo ações que contemplem desde o investimento em educação até medidas de incentivo à ampliação de oportunidades no mercado de trabalho.

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