editorial

Desestímulo à leitura

00:00 · 07.10.2017

A frustração do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) muito diz sobre as prioridades da administração federal. Mais uma vez, desmorona um importante plano de incentivo à leitura, deixando deserta parte significativa da educação de crianças e jovens da rede pública.

Por meio daquela iniciativa, de 2000 a 2014, em torno de 230 milhões de livros foram adquiridos pelo governo, com média de custo de R$ 3,80 por unidade. Com investimento de R$ 68 milhões por ano, o carente acervo das escolas de ensino básico passou a ser suprido, e os estudantes tinham possibilidade maior de criar laços estreitos com o hábito da leitura, indo além dos livros didáticos para desbravar os diferentes universos criados pela fantasia dos autores. Mas o programa parou de ser executado em 2015 e, desde então, nenhuma obra de literatura chega às mãos das crianças e adolescentes.

O inaceitável desabastecimento tende a agravar uma situação já problemática. Recente pesquisa, realizada pelo Ibope e encomendada pelo Instituto Pró-Livro, trouxe alguns dados intrigantes sobre o retrato da leitura no País.

Entre 2011 e 2016, o número de leitores registrou um aumento, saindo de 50% para 56% da população. Apesar da melhora, 30% das pessoas afirmaram que nunca compraram um livro. O estudo indica que, na média, o brasileiro lê menos de 5 livros por ano e, por vontade própria, apenas 2,88, bastante abaixo, portanto, da média mundial.

De acordo com um ranking internacional de leitura, divulgado no ano passado, o Brasil é apenas o 27º entre 30 países. A metodologia considera leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos 3 meses, incluindo os didáticos.

É inegável que, nos últimos anos, houve um aumento da aparelhagem bibliotecária nas escolas públicas. Conforme o IBGE, em 15 anos, os espaços de leitura chegaram a quase todas as cidades. Em torno de 97% dos municípios possuem pelo menos uma biblioteca. Em 1999, a proporção era de 76%.

Mas ainda há muito a percorrer. O Brasil tem uma biblioteca pública para cada 30 mil pessoas. Na Europa, há países com índice perto de uma por 2 mil habitantes. Para além da quantidade de equipamentos, existe a forte questão comportamental que precisa ser revertida para que haja aproximação satisfatória com as letras.

A orientação para a leitura a partir da infância, na escola e na estrutura domiciliar, mostra sempre que essa pode ser uma atividade extremamente enriquecedora e prazerosa e não algo enfadonho.

A prática traz avanços cognitivos, incrementa a capacidade crítica, o vocabulário, a eloquência da expressão verbal e escrita e as bases para o aprendizado dos mais vastos conteúdos.

Mesmo sabedor dos benefícios ilimitados da leitura, o governo federal não vê urgência em dirimir as consequências da extinção do PNBE.

Conforme aventou o Ministério da Educação, somente em 2019 os livros poderão voltar a ser adquiridos, por meio de um programa substituto que ainda está em análise. Até lá, nada de novidade nos acervos.

Para o cidadão, é difícil entender a suposta escassez de dinheiro para a compra de livros de literatura para as escolas, enquanto o dinheiro público corre em outros setores com influência política. Em tempos estreitos, cortar os recursos da educação é um erro comum, cuja consequência é o inevitável atraso no desenvolvimento social.

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