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Desencontro

00:00 · 14.09.2018

Nestes novos tempos, em que as mulheres - com muita justeza, valorizadas e reconhecidas por suas capacidades antes menosprezadas - arvoram-se empoderadas, um fato, não sei se novo, tem ecoado em meus ouvidos: a mudança de conduta das caras-metades de amigos longevos.

Especialmente os já aposentados, como eu, que passam boa parte do dia em casa, queixam-se de ser alvo de constantes reprimendas de suas esposas. Uns lastimam, sobretudo, as implicâncias gratuitas, que ocorrem, por exemplo, quando demoram ao celular jogando conversa fora com algum amigo e às vezes rindo de uma piada, apenas por não agirem assim com elas. Certa feita, um contou-me que usou um balde para regar uma planta e levou uma descompostura por ter pegado a vasilha errada. Outro esqueceu os chinelos na sala e foi severamente repreendido. Um terceiro permitiu que seu amigo, em uma ausência de dois dias, deixasse o carro na vaga excedente de seu uso no condomínio onde mora. Para quê?! A exprobração foi exacerbada. Também ouço dizer que estão se acostumando à nova realidade, criando artifícios para transitar por esses momentos sem maiores apertos. Há quem simule estar com a boca cheia d'água e logo tudo passa. Os mais sábios buscam relevar, mediante a oferta de um mimo que agrade ou respondendo ao esbregue com uma tirada espirituosa que desconcerte a parceira, levando-os aos risos. Alguns mais rebeldes sentem-se humilhados e dormem a primeira noite no sofá, mas, no dia seguinte, murcham as orelhas e quedam-se resignados. Se você é dessa faixa etária, possivelmente tem o que contar.

Pedro Roberto Sampaio
Administrador

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